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A verdadeira história de Emily Rose
Testemunhos

A verdadeira história de Emily Rose

A verdadeira história de Emily Rose

Em 1978, a Justiça alemã condenou como homicidas tanto os pais de Anneliese Michel quanto os padres envolvidos em seu exorcismo. O que pareceu um fracasso aos olhos do mundo, no entanto, pode ter sido um verdadeiro triunfo aos olhos de Deus.

Matt C. AbbottTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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O texto abaixo é a tradução de um trecho do livro Anneliese Michel: A True Story of a Case of Demonic Possession [“Anneliese Michel: Uma História Real de um Caso de Possessão Demoníaca”, ainda sem tradução portuguesa], do Pe. José Antonio Fortea e de Lawrence E.U. LeBlanc. 

Trata-se do resumo de um caso célebre, que ficou ainda mais famoso nos cinemas, com “O Exorcismo de Emily Rose”. Diferentemente, porém, do alarde cinematográfico, conhecer a história real da jovem Anneliese Michel nada mais é que entrar em contato com as verdades que a Igreja Católica sempre ensinou, a saber: que há um Deus providente que governa o mundo; que existem anjos decaídos ao nosso redor, “procurando a quem devorar”; e que o sofrimento humano, por mais agudo e terrível que seja, sempre pode ganhar um sentido à sombra da Cruz de Cristo.

Os que desejarem — e não tiverem problemas, evidentemente, com esse tipo de conteúdo —, podem acessar depois, no YouTube, algumas gravações das sessões de exorcismo por que passou Anneliese Michel, na Alemanha, em 1976.


A 30 de março de 1978, no tribunal distrital de Aschaffenburg, Alemanha, começava o julgamento de Josef e Anna Michel, Pe. Arnold Renz e Pe. Ernst Alt. Os quatro foram acusados do homicídio culposo de Anneliese Michel. O tribunal estava ocupado principalmente por pessoas dos meios de comunicação da Alemanha e de outros países. Anneliese, sua família e alguns amigos próximos, os dois sacerdotes envolvidos e o bispo local acreditavam que ela sofria de possessão demoníaca. Na época, foi o primeiro caso oficial e público de exorcismo na Alemanha em aproximadamente cinquenta anos, e o único caso registrado em áudio de que se tem notícia. Depois de sessenta e sete sessões de exorcismo, Anneliese morreu em 1.º de julho de 1976, aparentemente de inanição. 

Anneliese Michel.

Quando o juiz Bohlender leu o veredito da corte no dia 21 de abril de 1978, as opiniões do especialista médico fornecidas pela acusação foram aceitas na íntegra. Os envolvidos no caso não poderiam ter sabido que uma epilepsia havia evoluído para uma psicose. Em maio de 1976, no máximo, Annelise já não tinha condições de determinar seu bem-estar nem de lidar com ele. As sessões de exorcismo agravaram a doença dela. Os réus deveriam ter buscado auxílio médico. A corte disse que, se Anneliese tivesse recebido tratamento médico ou recebido alimento à força até uma semana antes de sua morte, sua vida poderia ter sido preservada. Portanto, a sentença afirma que eles deveriam ter buscado cuidados médicos, mesmo convencidos de que o problema fosse espiritual. Isso significa que qualquer médico, psiquiatra ou funcionário público (talvez) que considerasse prejudicial para a saúde de uma pessoa a realização de um exorcismo, poderia intervir legalmente e assumir um caso como aquele.    

Uma de suas irmãs atestou que Annelise havia deixado claro que não queria ser enviada a um hospital psiquiátrico onde poderia ser sedada e alimentada à força.

Os quatro réus foram condenados a seis meses de prisão, que foi suspensa e substituída por três anos de liberdade condicional. Pe. Alt recebeu uma multa de 4.800 marcos alemães e Pe. Renz, uma de 3.600. Também foram responsabilizados pelos custos judiciais. Inicialmente, os quatro acusados recorreram da decisão da corte. Depois de refletirem sobre todo o processo, em parte por causa de razões financeiras e em parte porque os envolvidos não tinham certeza de que uma decisão justa poderia ser dada, decidiram retirar o recurso. É importante notar que as despesas judiciais dos sacerdotes foram assumidas pela Diocese de Wurzburg. Se tivessem mantido o recurso, os sacerdotes teriam sido responsáveis por quaisquer custos legais adicionais. Atualmente, todos os arquivos do processo e os da diocese relativos a essa história não estão disponíveis ao público.

Não deveríamos ficar surpresos com o veredito dado pelo tribunal ou pelo desprezo que o público nutria pelos réus. Geralmente, o público apoia os réus quando os tribunais julgam casos controversos. Nesse caso, os pais e os dois sacerdotes acusados estavam sob enorme pressão, já que as leis, a Igreja, a mídia e a opinião pública estavam majoritariamente contra eles.

Annelise, sua família, Peter, os Heins, os sacerdotes e o bispo acreditavam que soluções médicas e psicológicas não foram bem-sucedidas. Também acreditavam que, em última instância, a situação de Anneliese preenchia os critérios de possessão. Depois de muito tempo, consultas e diversas solicitações ao bispo, receberam autorização para começar as orações de exorcismo. Num mundo moderno em que as crenças religiosas foram marginalizadas e muitas das verdades sustentadas há tempo pela Igreja Católica começaram a sofrer ataques internos e externos, não deveria haver muitas dúvidas de que as opiniões a respeito do que realmente aconteceu com Anneliese Michel ficariam divididas. Os que não creem em Deus também não creem na existência de demônios, e isso faz do exorcismo algo “próprio da Idade Média”. Embora Anneliese nunca tenha passado por uma avaliação psiquiátrica detalhada, a epilepsia e a doença psicológica eram causas prováveis dos sintomas que ela apresentava. 

No entanto, ocorreram coisas que não podiam ser explicadas por esse diagnóstico. Para os que acreditam em Deus e no Novo Testamento, a possessão é uma causa plausível para o sofrimento de Annelise. Está claro que ela, seus familiares, amigos e muitos sacerdotes familiares com o caso acreditavam que ela sofria de possessão; a fé dela em Deus e na Igreja Católica não foram questionadas e, acima de tudo, ela sofreu bastante e ofereceu esse sofrimento por Jesus Cristo… 

Quando os autores se familiarizaram com as circunstâncias do caso, puderam afirmar sem sombra de dúvida, levando em conta o campo das patologias mentais e reconhecendo a existência do mundo espiritual, que Anneliese Michel não sofria de doença mental. O que vemos no comportamento dela não vem de um estado de doença mental, mas da possessão demoníaca que a acometia. A depressão que ela enfrentou foi uma consequência normal da situação em que se encontrava. Durante a última parte de sua vida, ela sofreu de uma compulsão provocada pela influência dos demônios sobre sua mente. Isso ficou manifesto por meio da repetição de atos piedosos como genuflexões e orações. Era parte da cruz que Deus lhe permitiu carregar.

Anneliese sofreu física, mental e espiritualmente. Sofria os efeitos físicos das convulsões ou sintomas semelhantes, breves períodos de inconsciência, às vezes dificuldade de comer, dormir, caminhar e falar. Houve sintomas semelhantes aos da depressão que se tornaram constantes. Às vezes, seu desejo espiritual de rezar, confessar-se, ir à Missa e receber a Sagrada Eucaristia sofriam interferência ou não podiam ser realizados. Ela sofria porque ninguém parecia ser capaz de ajudá-la, exceto por meio da oração, algo que causava alívio em diferentes graus. Ela ficava apavorada com rostos demoníacos e outras provações semelhantes. Apoiando-se na fé, aceitava esses sofrimentos e os oferecia a Deus em expiação pelos pecados de outras pessoas. Continuava a viver sua vida de forma heroica, apesar dos formidáveis desafios. Afora tais sofrimentos, ela parecia viver e funcionar como uma pessoa feliz e normal.      

Em meio a esses sofrimentos, sua família e os sacerdotes acreditavam que Anneliese recebia consolações divinas sob a forma de locuções e que sentia a presença de Jesus, Maria, vários santos e muitos parentes já falecidos. Mais tarde, Anneliese recebeu visões de Jesus e Maria, tal como a descrita por Anna Michel e Thea Hein, na qual Maria apareceu a ela e lhe perguntou se estava disposta a oferecer seus sofrimentos a Deus.

A lápide de Anneliese Michel, lugar de peregrinações.

Anneliese, sua família, Peter, os Heins, Pe. Renz, Pe. Alt, Pe. Rodewyk, Bispo Stangl e vários outros sacerdotes que tinham familiaridade com o caso acreditavam que Anneliese sofria de possessão demoníaca. Consequentemente, o único remédio para aliviar a situação de Anneliese era rezar as orações de exorcismo. Eles acreditavam que essas orações terminariam sendo bem-sucedidas e que Anneliese seria libertada. Se o exorcismo tivesse dado certo, talvez somente a família, amigos e sacerdotes teriam tomado conhecimento dos episódios ocorridos na vida de Anneliese, a qual em abril ou maio de 1976 parecia ter concluído que sua oferta poderia incluir o oferecimento da própria vida. Quando lhes perguntavam por que não saíam do corpo de Anneliese, os demônios respondiam que não tinham autorização para fazê-lo. Como Annelise ofereceu seus sofrimentos a Deus e morreu em 1.º de julho de 1976 (data que, segundo previsão dela mesma, marcaria a resolução da situação), podemos especular que isso aconteceu por permissão divina.    

Uma vez que esses acontecimentos podem ser interpretados como uma forma de participação nos sofrimentos de Cristo, se considerados de uma perspectiva espiritual, a morte de Anneliese não representou de modo algum o fracasso do exorcismo. Deve ser entendida da mesma forma que a morte de Cristo. O que pode ser visto como fracasso aos olhos do mundo pode, na verdade, ser um triunfo aos olhos de Deus. Anneliese fez tudo o que estava ao seu alcance para libertar-se da tirania dos demônios, e os sacerdotes fizeram tudo o que estava ao alcance deles para libertá-la. Então, por que Deus permitiu que ela morresse? Como um sacrifício expiatório?

A ideia de que sofrimentos oferecidos com amor, resignação e paciência possuem valor salvífico é central na teologia cristã. Tais sofrimentos tornam-se graças para a salvação de outras pessoas. O sacrifício na cruz ocorrido há dois mil anos não pode ser compreendido sem esse conceito de expiação. Nessa nova versão alemã do Calvário, todos fizeram o que consideraram mais adequado, mas Deus aceitou o sacrifício e permitiu a morte de Anneliese.  

Deus permitiu que os demônios impedissem Anneliese de comer, assim como, ao longo da história, permitiu que carrascos martirizassem suas vítimas, apesar de elas terem rezado e pedido sua libertação. Os Michels e os dois sacerdotes sofreram muito após a morte de Anneliese e o veredito do tribunal. Sob alguns aspectos, sofreram pelo resto de suas vidas com o terrível fardo de serem cercados de pessoas que os consideravam culpados, mesmo sabendo em boa consciência que fizeram por Anneliese o melhor que puderam.       

Esse caso teve outra consequência: interrompeu efetivamente os exorcismos na Alemanha. Embora não fossem comuns no país naquele período, depois desse doloroso episódio parece que ninguém mais quis se envolver com o poder de expulsar demônios, dado por Jesus aos seus Apóstolos. Raras foram as vezes em que um episódio desse tipo afetou a Igreja de modo tão negativo num país.


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Uma Quaresma contra o orgulho
Espiritualidade

Uma Quaresma contra o orgulho

Uma Quaresma contra o orgulho

Além de ser o mais pesado dos pecados e uma grande pedra de tropeço no caminho da santidade, o orgulho leva à cegueira espiritual e nos impede de permanecer dóceis à ação do Espírito Santo. Aproveitemos esta Quaresma para combater essa obstinação.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Sou extremamente obstinada. Não tenho a força de vontade que tinha na juventude, mas ainda é uma batalha contínua. Nosso Senhor, em sua misericórdia, teve de me “quebrar” várias vezes. Pessoas obstinadas são incrivelmente independentes; muitas vezes pensamos poder fazer algo sozinhas, ou já o fazemos nós mesmas. Isso nos torna propensas a pecados profundamente arraigados no orgulho. O orgulho é o pecado mais pesado e a principal pedra de tropeço no caminho da santidade, e é por isso que Cristo, de fato, precisa “quebrar” certas almas, inclusive a minha.

O caminho para a santidade não pode ser conquistado pelo orgulho. Só o alcançamos pela humildade, que está na disposição de colocar a Deus no centro de nossas vidas e a sua vontade acima da nossa. Para pessoas obstinadas, é uma luta, já que muitas vezes queremos fazer “do nosso jeito” ou saber por que Deus nos está pedindo algo antes mesmo de o fazermos. O Espírito Santo não irá operar livremente em nós e através de nós enquanto estivermos procurando estar sob controle e pondo nossa vontade no centro de tudo. Em algum momento, todos temos de dizer, como Nosso Senhor no Jardim de Getsêmani: “Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39).

Todos somos fracos. Cada pessoa é capaz de uma escuridão incrível. Parte do que nos leva a julgar os pecados alheios é a crença falsa de que nunca mais cometeremos pecados graves. Esquecemos que, em determinadas circunstâncias, todos somos capazes de cometer pecados terríveis. A ideia de que nunca entraríamos em tal escuridão vem do orgulho e da falsa crença de que estamos no controle de tudo.

Em The School of Jesus Crucified [“A Escola de Jesus Crucificado”], o Frei Inácio do Lado de Jesus afirma:

Quase sempre acontece de os sentimentos interiores de orgulho precederem a prática de pecados graves. Pedro não tinha consciência da própria fraqueza. Preferiu a si mesmo antes dos outros; confiava em si como se fora incapaz de pecar, gabando-se de que nenhuma tentação o separaria de Jesus. Ele nem sequer deu fé à garantia do Divino Mestre de que o iria negar três vezes. Iludido pela vã confiança em suas próprias forças, esqueceu-se de orar e recorrer a Deus; e Deus, em sua justiça, permitiu-lhe cair no castigo de seu orgulho. Não há nada mais perigoso do que confiar na própria força e em sentimentos de fervor! Estamos cheios de malícia e somos capazes de cometer os crimes mais atrozes, a menos que Deus nos ampare.

É verdade que podemos não ser propensos aos mesmos pecados que os outros, mas ainda somos propensos a pecar. Confiar em nossas próprias forças e esquecer nossas fraquezas sempre leva ao pecado do orgulho, o qual nos abre para uma série de outros pecados. O orgulho leva à cegueira espiritual e nos impede de permanecer dóceis à ação do Espírito Santo em nossas vidas.

Por isso é, de fato, misericordioso e justo que Deus nos permita cair por causa dos nossos pecados, especialmente o orgulho. Encontrar-nos com o rosto em terra nos reorienta de volta à Via Crucis e ao caminho da santidade que todos somos chamados a percorrer. Mesmo que tenhamos certeza do caminho que Deus nos está chamando a trilhar, podemos facilmente cair no orgulho ao decidirmos, por nós mesmos, qual a melhor forma de responder ao chamado de Deus. A maneira como percorremos o caminho é tão essencial quanto o próprio caminho. É por isso que, muitas vezes, pessoas com força de vontade precisam cair de novo e de novo. Cada queda funciona como o refinamento e o distanciamento necessários da nossa própria vontade. Cada queda nos leva a uma maior humildade.

A Quaresma é uma oportunidade para pedir a Deus que nos revele onde estamos deixando de colocar a sua vontade acima da nossa. É o momento de entrar na escuridão que habita em nós e permitir que Cristo faça brilhar sua luz reparadora nos lugares em que nos escondemos por medo e vergonha. As práticas quaresmais da oração, do jejum e da esmola nos livram das distrações e do autoengano que frequentemente usamos para fugir de Deus.

“O Homem das Dores nos braços da Virgem”, de Hans Memling.

De muitas maneiras a Quaresma nos deve “quebrar”. Deve ser difícil. Este tempo é um momento de enfrentarmos a nós mesmos e ao maligno, para que possamos dedicar-nos totalmente ao seguimento de Cristo. Aprendi com o passar dos anos que não é fácil se deixar “quebrar”. Na verdade, é doloroso. Com frequência, evitamos esse processo ou buscamos falsificações que nos preservam de enfrentar as dificuldades necessárias ao crescimento em santidade. Entretanto, se realmente desejamos a santidade e a promessa de vida eterna, não há outro caminho.

Temos de morrer para nós mesmos, e isso significa — por meio da ação do Espírito Santo — conhecer a nós mesmos, especialmente nossas fraquezas e falhas de personalidade. No meu caso, ter obstinação é um dom apenas quando está ordenado a Deus; caso contrário, as pessoas obstinadas tendem a “passar por cima” dos que estão à sua volta. Todos somos obstinados às vezes e vemos o rastro destrutivo que isso deixa para trás. Mesmo que o processo de autoconsciência seja doloroso, sabemos que é realizado com o fogo do amor de Deus. Podemos confiar que, se nos submetermos a Ele, a alegria estará à nossa espera do outro lado da escuridão que, neste momento, precisamos atravessar.

Uma das maneiras que encontrei para ter clareza de visão sobre minha pessoa e a batalha espiritual que se desenrola ao meu redor é pedir a orientação de Nossa Senhora das Dores. Como passamos grande parte da Quaresma voltados para a Paixão de Nosso Senhor, agora é momento de entrar no doloroso e Imaculado Coração de Maria, onde podemos encontrar refúgio e verdadeiro conhecimento sobre nós mesmos e tudo o que Deus nos pede. Ela caminha para a escuridão conosco. Como Mãe dolorosa, está conosco no deserto. Ela é a nossa Mãe humilde, que ajudará a nos afastarmos do orgulho e nos submetermos à vontade de Deus e ao seu desígnio para cada um de nós.

Esta Quaresma é uma oportunidade para nos esvaziarmos de nossa própria obstinação e orgulho, para que possamos ser discípulos fiéis de Jesus Cristo. Não será um processo fácil; mas, com a nossa Mãe dolorosa a nos conduzir à união com Deus através da nossa própria escuridão, encontraremos o caminho da alegria e da paz. Assim sairemos desta Quaresma livres dos pecados, fraquezas e falhas de caráter que nos assolam. Nas próximas semanas, Nossa Senhora das Dores nos pode conduzir no caminho da perfeição através do deserto em que nos achamos.

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Sete Salmos contra os pecados capitais
Oração

Sete Salmos
contra os pecados capitais

Sete Salmos contra os pecados capitais

Você sabe o que são os Salmos penitenciais? Rezando os cânticos de Davi ao longo dos séculos, a Igreja identificou sete em especial para aumentar em nós o arrependimento dos pecados e o espírito de luta contra as más inclinações de nossa carne.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Já faz muito tempo que os Salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 são associados a devoções penitenciais. Ninguém menos que Santo Agostinho os teria recitado em seu leito de morte. Mas eles também são recomendados no combate aos sete pecados capitais — soberba, avareza, ira, luxúria, gula, inveja e preguiça —, sendo cada um desses vícios associado a um salmo em particular. 

As fórmulas de oração abaixo foram retiradas da obra Coeleste Palmetum, do Pe. Wilhelm Nakatenus (1617-1682); sua versão latina encontra-se à disposição no site Preces Latinae; e a tradução portuguesa a seguir é de nossa equipe. 

Por tratar-se de uma devoção privada, essas orações podem ser rezadas da forma como cada fiel achar mais conveniente: quem percebe em si uma inclinação maior a determinado pecado capital, por exemplo, pode rezar apenas o salmo e a oração correspondentes a ele; quem deseja incorporar essa prática às suas orações vocais habituais, pode rezá-la por completo etc.


Antífona. — Não recordeis, Senhor, os nossos delitos, ou os de nossos pais, nem tomeis vingança de nossos pecados.

1) Reza-se o Salmo 6. Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a soberba. — “Nosso Senhor Jesus Cristo humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz. E eu, vilíssimo verme da terra, eu que sou pó e cinza, o maior dos pecadores, que mil vezes mereci o inferno, não me envergonho de ser orgulhoso? Sede-me propício, Senhor: reconheço e detesto minha execrável arrogância. Não me lanceis, eu imploro, com o soberbo Lúcifer e seus asseclas no abismo do inferno. Convertei-vos e livrai minha alma, ajudai-me e salvai-me por vossa misericórdia! Preferi doravante viver rejeitado na casa de Deus a morar nas tendas dos pecadores (cf. Sl 83, 11)”.

2) Reza-se o Salmo 31(32). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a avareza. — “Que há para mim no céu e que desejei de vós sobre a terra, Deus de meu coração e minha herança para sempre? Não se sacia o olho com o que vê, nem basta ao ouvido o que ouve: serei saciado quando aparecer a vossa glória! Ai de mim, que com tanto esforço tenho servido até agora a Mamon! De que me aproveitará lucrar o mundo inteiro, se vier a perder minha alma? Dormiram o seu sono todos os opulentos, e nada encontraram em suas mãos. Confessarei contra mim a minha injustiça ao Senhor, e vós perdoareis, espero, a impiedade de meu pecado. Do pobre doravante terei compaixão, hei de restituir o que devo e me consagrarei mais ferventemente ao vosso serviço. Ajudai-me, Senhor, vós que cumulais de benefícios a minha vida (cf. Sl 102, 5)”.

3) Reza-se o Salmo 37(38). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a ira. — “‘Um homem guarda rancor contra outro homem, e pede a Deus a sua cura! Não tem misericórdia para com o seu semelhante, e roga o perdão dos seus pecados! Quem, então, lhe conseguirá o perdão de seus pecados?’ (Ecle 28, 3ss). Com estas palavras, Senhor, me falais pelo servo, vosso filho, Sirac. E eu, de agora em diante, acaso ousarei alimentar ira ou ódio contra alguém? Perdoai-me, Senhor, perdoai-me minha malícia e obstinação, na qual perseverei até hoje. De coração, desculpo e perdoo agora o que quer que contra mim já tenham feito; e rogo suplicante, Senhor, que em vossa cólera não me repreendais nem em vosso furor me castigueis. Oxalá, como um surdo, doravante não ouça e, como um mudo, não abra mais a boca, quando meus inimigos contra mim se levantarem e me fizerem violência os que perseguem minha alma. Não me abandoneis, Senhor Deus meu, não vos aparteis de mim, ‘porque vós sois a minha esperança’ (Sl 70, 5)”.

4) Reza-se o Salmo 50(51). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a luxúria. — Pai, pequei contra o céu e contra vós, por isso não sou digno de ser chamado vosso filho. Que farei eu, miserável? Não permanecerá o vosso Espírito num homem carnal. Ah! tende piedade de mim, tende piedade. À vossa bondade atribuo que não me conte entre os tantos milhares de réprobos a quem a abominável peste da luxúria ainda hoje precipita no inferno. Irei eu pecar novamente? Hei de conculcar outra vez, por amor a desejos bestiais, o vosso preciosíssimo Sangue, ó Jesus, derramado em purificação de meus crimes? Longe de mim, ó Jesus, longe de mim! Peço-vos, ó Filho da castíssima Virgem Maria: livrai-me do espírito de fornicação. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. De vossa face não me rejeiteis nem me priveis de vosso Santo Espírito”.

5) Reza-se o Salmo 101(102). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a gula. — “Ai de mim, miserável, que vos abandonei a vós, Senhor Deus, fonte de água viva, e abri para mim cisternas de prazeres terrenos, cisternas rachadas que não podem reter água (cf. Jr 2, 13)! Em verdade, esqueci-me de comer meu pão, o pão da vida, que contém em si todo o deleite e a suavidade de todo sabor, e busquei encher o ventre com bolotas de porcos (cf. Lc 15, 16). Ainda tinham comida em suas bocas os filhos de Israel quando a ira de Deus caiu sobre eles: e a mim tantas vezes me perdoastes, que pela intemperança da comida e da bebida desfigurei em mim vossa imagem, ó Deus, fazendo-me semelhante às bestas! Oxalá de agora em diante eu coma cinzas como se fossem pão e misture lágrimas à minha bebida; que o meu alimento seja fazer em tudo a vossa vontade, vós, que nos ‘dais de beber das torrentes de vossas delícias’ (Sl 35, 9)”.

6) Reza-se o Salmo 129(130). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a inveja. — “De tal modo, meu Deus, amastes o mundo, que destes o vosso Filho unigênito, para que todo o que crê em vós não pereça, mas tenha a vida eterna. Vós fazeis o Sol nascer sobre bons e maus e cair a chuva sobre justos e injustos. E eu, enquanto a fortuna toca a outros, rasgo-me de inveja e desejo que tudo suceda segundo a minha vontade, mas entristeço-me com a mínima felicidade do próximo? Oh, malícia desumana! Oh, vírus infernal! Perdoai-me, clementíssimo Pai, que eu até hoje tenha pecado nisso. Benigna é a vossa misericórdia. Fazei, a partir deste momento, que eu vista, como um eleito de Deus, vísceras de misericórdia e benignidade e, acima de tudo, que eu busque ter caridade, que é o vínculo da perfeição (cf. Col 3, 14)”.

7) Reza-se o Salmo 142(143). Ao final, diz-se um Glória, a Antífona do início e, por fim, a seguinte oração contra a acídia. — “Quando, meu Deus, começarei, como é justo, a amar-vos e louvar-vos de todo o meu coração, com toda a minha alma e com todas as minhas forças, a vós que com caridade perpétua me amastes e me desposastes para sempre? Ai! Dormitou minha alma por tédio. Ai de mim, porque tenho sido até agora tão tíbio no vosso serviço, que com justiça posso temer que comeceis a vomitar-me de vossa boca (cf. Ap 3, 16). Mas tende piedade, Senhor: ‘Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de vós. Estendo para vós os braços: minha alma, como terra árida, tem sede de vós. Apressai-vos em me atender, Senhor, pois estou a ponto de desfalecer’; o vosso bom Espírito, porém, me conduzirá pelo caminho reto. ‘Por amor de vosso nome, Senhor, conservai-me a vida’ (Sl 142, 11)”.

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O fantasma do arianismo na Igreja de hoje
Doutrina

O fantasma
do arianismo na Igreja de hoje

O fantasma do arianismo na Igreja de hoje

Como ervas daninhas, as heresias vêm e vão. A questão é que elas voltam de maneiras diferentes. É o caso do arianismo, que hoje chega até nós de modo escondido, como um parasita, e disfarçado, sob a forma de humanismo materialista.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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[Este texto é de autoria do Pe. Dwight Longenecker. Foi vertido à língua portuguesa por nossa equipe.]

As heresias são como ervas daninhas. Elas continuam voltando. A questão é que elas voltam de formas diferentes

No século IV, o arianismo fazia parte do grande debate sobre a divindade de Cristo e, portanto, sobre a definição do dogma da Santíssima Trindade. Essa heresia começou com o ensino de Ário em meados do século III e se espalhou por todo o Império. Missionários da parte oriental foram para o norte, e as tribos góticas foram convertidas ao arianismo.

O arianismo se desenvolveu não apenas como um problema teológico, mas também como um grande cisma. Os arianos tinham suas próprias igrejas, seus próprios bispos e seus próprios poderes temporais — como o rei gótico Teodorico, o Grande, que governava a Itália por volta do ano 500 — para os apoiar. No cerne do arianismo estava uma negação da cristologia nicena. Em resumo, eles acreditavam que Jesus era o “Filho de Deus”, mas não a Segunda Pessoa da santa e indivisa Trindade, que assumiu a carne humana de sua bem-aventurada Mãe. Ele era, em vez disso, um ser criado — um semideus e, portanto, subordinado a Deus Pai.

S. Atanásio, que lutou contra o arianismo, notou que os arianos eram teólogos sutis. Eles usavam uma linguagem ambígua e falavam em termos vagos. Estavam mais interessados no cuidado pastoral do que no dogma. Também eram, em sua maioria, os mais letrados e das classes dominantes. O arianismo era uma forma de cristianismo muito mais confiável. Um Jesus como ser criado, subordinado ao Pai, era mais palatável intelectualmente do que a autêntica doutrina da Encarnação, que levou a dificuldades intelectuais a respeito da Santíssima Trindade.

Hoje, o arianismo assume uma forma diferente e chega até nós sob a forma de humanismo. Por “humanismo” quero dizer aquele sistema de crenças que toma o homem como medida de todas as coisas. Este humanismo é um conglomerado de diferentes crenças modernistas, mas o resumo de tudo é o materialismo: este mundo físico é tudo o que existe, a história humana é tudo o que importa e o avanço da raça humana, neste reino material, é a única coisa pela qual devemos lutar.

O arianismo atual é uma interpretação do cristianismo de acordo com essa filosofia materialista e humanista. Claramente, Jesus Cristo, como o Filho divino de Deus e Segunda Pessoa coeterna da Santíssima Trindade, não se encaixa aqui. Em vez disso, Jesus seria um bom mestre, um rabino sábio, um belo exemplo, um mártir de uma causa nobre. No máximo, ele seria um ser humano “tão realizado e autorrealizado que ‘se tornou divino’”. Em outras palavras, “Jesus seria um ser humano tão completo que nos revela a imagem divina, à qual todos fomos criados — e, portanto, nos mostra como Deus é”. Em certo sentido, essa “divinização” de Jesus teria acontecido como resultado das graças que recebeu de Deus, da vida que levou e dos sofrimentos que suportou.

Esse cristianismo diluído é a forma moderna do arianismo. O contexto cultural da heresia e sua expressão são diferentes, mas a essência dela é a mesma de sempre: “Jesus Cristo é um ser criado. Sua ‘divindade’ é algo que se desenvolveu ou foi adicionado à sua humanidade por Deus”.

A diferença entre Ário e os hereges modernos é que Ário foi realmente explícito em seus ensinamentos. Os hereges modernos não. Eles habitam nossos seminários, nossos mosteiros, nossas casas paroquiais e presbitérios. Eles são do clero modernista que domina as principais denominações protestantes, mas também são numerosos dentro da Igreja Católica. Eles não são uma seita ou denominação separada. Ao contrário, eles infestam a verdadeira Igreja como um parasita horrível.

Muitos deles nem mesmo sabem que são hereges. Eles foram mal catequizados desde o início. Suas crenças sobre Jesus Cristo permaneceram confusas e fora de foco. Eles mantêm suas crenças em uma névoa sentimental, na qual sentem, de modo muito vago, que o que acreditam é “cristão”, mas não querem se aprofundar. Isso acontece porque eles foram ensinados a ver o dogma como um causador de divisão. Eles mantêm suas crenças deliberadamente vagas e focam nas “preocupações pastorais”, para evitar questões difíceis.  O dogma faria parte de uma época anterior na Igreja; hoje, nós amadurecemos e superamos esse tipo de questiúncula. “Deus, afinal, não pode ser colocado em uma caixa. Ele é maior do que tudo isso…”.

Apesar disso, eles se sentem totalmente à vontade recitando o Credo niceno todas as semanas (N.T.: onde ele é recitado todas as semanas, claro; no Brasil, o costume é que se recite o Credo apostólico) e celebrando o Natal do Filho de Deus e o grande Tríduo Pascal — usando todas as palavras do cristianismo niceno tradicional, enquanto reinterpretam essas palavras de uma forma que agrade a Ário. Então, quando falam de Jesus Cristo, o Filho divino de Deus, o que realmente querem dizer é o que eu escrevi acima: “Que, de uma maneira linda, Jesus era um ser humano tão perfeito que nos revela como Deus é”.

A Virgem Maria, então, se torna “uma boa e pura moça judia que lidou com uma gravidez não planejada com grande coragem e fé”. A crucificação se torna “a trágica morte de um jovem e corajoso defensor da paz e da justiça”. A ressurreição significa que, “de alguma forma misteriosa, ao seguir seus ensinamentos, os discípulos de Jesus continuaram a acreditar que Ele estava vivo em seus corações e na história”.

Agora, o que realmente me interessa é que esses arianos modernos (e tenho certeza de que o mesmo se pode dizer da versão ariana do século IV) não são pecadores perversos e imundos. São boas pessoas. São pessoas articuladas e educadas. São pessoas abastadas. São pessoas bem conectadas. São pessoas “cristãs” boas, sólidas e respeitáveis. Caramba, até mesmo os imperadores eram arianos em seus dias! Eles eram as pessoas no topo da hierarquia socioeconômica. Além disso, sua versão ariana da fé parece muito mais razoável, sensível e crível do que a ortodoxia intelectualmente escandalosa de Atanásio, Basílio, Gregório e da Igreja histórica através dos tempos.

Reconheço esses hereges pelo que são: lobos em pele de cordeiro. Eles podem se apresentar como bons cristãos, respeitáveis, devotos e sinceros. Tudo bem. Mas são hereges. São mentirosos, e as pessoas que mais acreditam em suas mentiras são eles mesmos. Se conseguirem o que querem e suas heresias sutis prevalecerem, destruirão a fé.

De minha parte, quero manter a fé histórica de Niceia com Atanásio, Basílio e Gregório e com os santos e mártires. Não me importo nem um pouco se o mundo pensa que essa fé é “antiga” ou “esquisita”, “infelizmente rígida”, “dogmática demais” ou “inacessível aos cristãos modernos”. Os arianos provavelmente usaram todos esses argumentos.

Eu afirmo o Credo niceno: não me importo em dizer “consubstancial com o Pai”, mantenho a clareza e simplicidade dessas palavras e não acho que elas precisem ser “reinterpretadas”.

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Estamos protegidos contra os demônios?
Espiritualidade

Estamos protegidos
contra os demônios?

Estamos protegidos contra os demônios?

“Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta.”

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Trazemos a seguir o relato de mais um caso acompanhado pelo Monsenhor Stephen Rossetti, exorcista da Arquidiocese de Washington, e publicado em seu blog Catholic Exorcism. A tradução para o português foi feita por nossa equipe:

“Júlia” cresceu numa boa família católica. Ela foi para a faculdade e começou a namorar um jovem que estava fortemente envolvido com ocultismo. Ela participava desses rituais e também adotava outros comportamentos pecaminosos.

Pela graça de Deus, na universidade ela teve contato com um grupo de jovens católicos bastante engajados na Igreja, e isso mudou sua vida. Ela terminou com o namorado, começou a assistir à Missa e buscou a Confissão. As coisas estavam melhorando.

Poucos meses depois de sua conversão, ela acordou pela manhã com marcas horríveis nas costas. Parecia que uma besta lhe tinha arranhado. Demônios começaram a atacá-la. À noite, eles a assediavam e abusavam dela. Ela tinha dificuldade para entrar numa igreja ou ir à Missa. Ela sabia que seu passado voltara para atormentá-la.

Duas amigas da universidade queriam ajudar. Elas entraram em seu quarto à noite e puderam ver o que estava acontecendo. Elas decidiram dormir no quarto dela para ajudá-la durante os ataques demoníacos.

Infelizmente, essas jovens, embora bem intencionadas, não estavam espiritualmente preparadas para o que encontraram. Uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual e, pouco depois, deixou a universidade. A outra ficou tomada de raiva, ameaçou cometer suicídio e também deixou a universidade. A família de Júlia recomendou-lhe um exorcista, que iniciou o rito.

Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta. Os pais eram católicos fervorosos.

No capítulo 6 da Carta aos Efésios, S. Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (v. 11). Aquelas duas jovens não estavam preparadas. Os pais de Júlia, sim.

A fé em Deus e em Jesus Cristo é a armadura que nos protege. À medida que a fé se esvai nestes tempos secularizados, temo que nossos lares e famílias estejam desprotegidos. À medida que a fé se esvai em nossa nação, o que será dela?

O que nos deve chamar a atenção nesse relato, em primeiro lugar, é como as pessoas, sobretudo os mais jovens, por falta de discernimento na hora de fazer amizades, têm se aproximado do mal e se tornado suscetíveis a ele. Em outros tempos, as famílias costumavam ter critério para admitir estranhos em seu convívio — e ensinavam seus filhos a fazer o mesmo: “Diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Não se começa uma amizade, muito menos um relacionamento amoroso, com alguém, só porque aparecem afinidades circunstanciais ou gostos marginais em comum. As pessoas são mais, muito mais, do que os jogos com que se divertem, as músicas que escutam ou as séries a que assistem. Ser amigo, no sentido verdadeiro do termo, é compartilhar convicções filosóficas, religiosas e morais fundamentais, que tocam o próprio sentido da existência humana.

O adágio bíblico é conhecido: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). No caso de Júlia, uma má companhia foi o suficiente não só para corrompê-la, mas para deixar marcas ainda mais profundas em sua alma.

Em segundo lugar, é sempre bom lembrar: diferentemente de Deus, os demônios não são seres onipotentes; tudo o que fazem está condicionado à ação permissiva de Deus e à sua bondosa Providência. Tampouco eles têm o poder de “obrigar” as pessoas a fazer o que não querem. Assim, quando lemos, das amigas de Júlia, que uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual, e outra chegou a tentar suicídio, ninguém pense que isso se deva a uma espécie de influência demoníaca irresistível. Mesmo as mais intensas tentações e obsessões demoníacas não são capazes de nos tirar o livre-arbítrio. O próprio Autor Sagrado, quando registra que “Satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes” (Lc 22, 3), não quis dizer com isso que o traidor de Cristo havia se tornado uma “marionete” nas mãos do inimigo. O pecado de Judas foi consciente e deliberado: ele sabia o que estava fazendo. Se o Evangelho se refere aqui a uma possessão literal, pode muito bem ser que ela tenha acontecido até como consequência da gravidade do pecado cometido por Judas. 

Por último, a lição principal de toda a história: a importância da bênção da Igreja, dos sacramentais, das imagens sagradas e da oração para proteger-nos da ação do inimigo. Nunca é demais insistir nesta passagem, que a liturgia da Igreja põe toda terça-feira nos lábios de seus sacerdotes, nas Completas: “Sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8). Se dormimos, o inimigo de nossas almas não dorme. Se não nos protegemos, ele investe contra nós e sai bem sucedido. A batalha espiritual já está acontecendo ao nosso redor. Fingir que ela não é real, ou ignorá-la, só será pior para nós. Precisamos nos armar, com tudo o que Deus nos concedeu através de sua Igreja, para sairmos vitoriosos nesse combate. 

Isso significa que devemos, sim, munir-nos de água benta e de outros materiais abençoados — como imagens, velas e terços —, sem nunca esquecer, no entanto, que a principal proteção contra o mal nós a levamos na alma, quando cremos em Deus e procuramos rezar, receber os sacramentos da Igreja e levar uma vida conforme os Mandamentos. Uma coisa não exclui, nem diminui a importância da outra, pois somos formados de corpo e alma

Por isso, vale a pena perguntar: a sua residência já foi abençoada por um padre? Você se preocupa em pedir a um sacerdote que abençoe as imagens ou velas que compra para rezar? Tem sempre consigo, em casa, um pouco de água benta? 

Caso tenha respondido “não” a alguma das perguntas acima, comece hoje mesmo a cultivar o hábito contrário e deixe-se cercar pela bênção de Cristo, que Ele quer derramar em nós não através de curandeiros espíritas e benzedeiros sem credenciais — pois isso é superstição [1] —, mas através dos sacerdotes da Igreja, cujo ministério Ele mesmo instituiu para levar ao mundo a sua salvação.

Notas

  1. Para consultar qual seja a posição da Igreja perante o fenômeno do curandeirismo, cf. Fr. Boaventura Kloppenburg, Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, pp. 34-36.

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