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Liturgia das Horas, uma “escola de oração”
Liturgia

Liturgia das Horas,
uma “escola de oração”

Liturgia das Horas, uma “escola de oração”

O que é a oração das Horas canônicas e por que ela é tão importante, não só para os padres e religiosos, mas para todos os católicos? Conheça nesta matéria sete razões para começar a rezar a Liturgia das Horas — e transformar isso num hábito para a sua vida.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 15 minutos
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Nosso Senhor mandou a seus discípulos que rezassem sem cessar. E embora muitos deles, durante os dias da vida terrestre de Cristo, não tivessem conseguido vigiar com Ele e cumprir esse mandato com toda a fidelidade, o Espírito Santo cuidaria de ensinar-lhes esse ofício e, século após século, inspirar os sagrados pastores, seus sucessores, para que tirassem do tesouro das Escrituras coisas velhas e novas.

A Liturgia das Horas nasce justamente do coração orante dos discípulos de Jesus. Constitui primeiro um ato da Igreja de imitação do seu Esposo, que não deixou de rezar jamais, em privado e no Templo, em seu ministério público e no ápice de sua missão. Ao rezar as Horas canônicas, o Corpo dos fiéis se une à sua Cabeça mística, pois, na verdade,

a dignidade da oração cristã tem sua raiz na participação da mesma piedade do Unigênito para com o Pai e daquela oração que lhe dirigiu durante sua vida terrena e que agora continua, sem interrupção, em toda a Igreja e em cada um de seus membros, em nome e pela salvação de todo gênero humano (Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas [IGLH], n. 7).

Isso significa que, seja qual for a oração que façamos, importa que sempre a façamos “por Cristo, nosso Senhor”. É por isso que o santo Rosário tem como eixo os mistérios da vida de Jesus; é por isso que as ladainhas sempre terminam com uma oração que o menciona; é por isso que a prece mais rezada pelos católicos, a Ave-Maria, tem no centro justamente o santíssimo nome de nosso Salvador. As nossas devoções só têm sentido se feitas “por Cristo, com Cristo e em Cristo”. Ele é o centro: é tornando-nos um com Ele que podemos nos dizer verdadeiramente cristãos.

Além dessas muitas orações privadas que podemos fazer, no entanto, existe também a oração pública da Igreja, em sua liturgia. E é justamente aqui que entra, junto com a Santa Missa, a Liturgia das Horas.

Mas por que mesmo a oração das Horas canônicas é tão importante? E por que ela deveria ser rezada não só por clérigos e religiosos, mas por todo o povo de Deus? É o que queremos apresentar a seguir: sete razões, simples, para que também você comece a rezá-la — e não só agora, na Quaresma, mas por toda a sua vida.

Estamos em guerra!

Por que a Liturgia das Horas?! Primeiro, porque estamos num combate espiritual e, se há uma coisa que os Salmos lembram o tempo todo, é isso. Escritos em sua maioria pelo rei Davi, essas orações estão intimamente ligadas aos percalços de sua vida como guerreiro e governante. A todo instante acossado por inimigos, ameaçado por povos estrangeiros, perseguido por membros de sua própria família, Davi travou numerosas batalhas, e no meio delas elevava confiante sua voz a Deus, pedindo-lhe que o ajudasse e livrasse do mal: 

O inimigo persegue a minha alma,
ele esmaga no chão minha vida
e me faz habitante das trevas,
como aqueles que há muito morreram.
Já em mim o alento se extingue,
o coração se comprime em meu peito (Sl 142 [143], 3s)!

Trechos como este estão hoje à inteira disposição da Igreja e de nós, que somos os seus membros, na luta contra os demônios e contra as pessoas e instituições que neste mundo, infelizmente, fazem as vezes deles e os representam. Falando, a propósito, das imprecações tantas vezes contidas nos Salmos (e que já tivemos a oportunidade de comentar aqui), D. Estêvão Bettencourt ensina o seguinte:

Para o cristão…, mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão. Não há dúvida, o discípulo de Jesus tem por lei “amar os inimigos, orar pelos que o perseguem” (Mt 5, 39.44). Sem, porém, derrogar ao amor dos homens, ele pode, e deve, devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás; deve desejar a extirpação completa deste potentado e dos seus baluartes, baluartes que, em parte, são as tendências desregradas da própria natureza humana, em parte são tudo que há de mal disseminado em torno de nós. Que o cristão, pois, reze os salmos imprecatórios, tendo em vista os vícios e as instituições hodiernas inimigas do reino de Cristo, todas as instituições e seitas que se esforçam por disseminar o erro e o pecado no mundo. E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios, do íntimo do coração, com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo [1].

Ou seja, a batalha do cristão não é apenas “contra os espíritos malignos nos ares” (Ef 6, 12). Na verdade, vai-se firmando, cada dia com mais clareza, uma espécie de encarnação do mal nas instituições, contra a qual também precisamos dirigir as nossas energias. Diante de um sistema a nível global que ataca a nossa fé, procura tirar as nossas liberdades, contaminar as nossas famílias, fazer uma verdadeira “lavagem cerebral” em nossos filhos, é preciso retomar a consciência de que somos Igreja, e Igreja militante

Sim, nós temos inimigos, mas não porque sejamos maus, violentos ou vingativos. O simples fato de amarmos Jesus e procurarmos seguir os seus Mandamentos é motivo suficiente para que o mundo nos odeie e persiga. Não sejamos, pois, ingênuos: estamos em guerra!

Sentimentos desordenados

Os nossos piores inimigos, porém, continuam sendo... nós mesmos. O mundo pode nos cercar de todos os lados, os demônios podem investir contra nós com todas as suas forças. Mas absolutamente ninguém tem o poder de nos arrastar ao pecado. Só nós, com o mau uso de nossa liberdade, podemos voltar as costas para Deus.

É, pois, porque temos os nossos sentimentos desordenados, em segundo lugar, que precisamos com urgência rezar a Liturgia das Horas. 

O rei Davi experimentou ao longo de sua vida todos os mesmos sentimentos que nos movem: amor e ódio, dor e prazer, alegria e tristeza, desespero e esperança, temor e coragem. Nenhuma dessas paixões escapou à consideração do salmista. Ao direcioná-las todas a Deus em oração, porém, essas realidades são ordenadas e “remediadas” por Ele

A verdade é que não podemos ficar simplesmente à mercê do que sentimos ou deixamos de sentir. Diferentemente dos animais, para os quais o instinto é um comando, nós podemos freá-lo e regular o nosso interior: 

Não queira ser semelhante ao cavalo,
ou ao jumento, animais sem razão;
eles precisam de freio e cabresto
para domar e amansar seus impulsos,
pois de outro modo não chegam a ti (Sl 31 [32], 8s).

Muitas pessoas não têm disciplina na oração, por exemplo, porque estão à mercê de gostos e de seu estado emocional: se não estão “com vontade”, não rezam, e enquanto a tal “vontade” não vem, ficam sem rezar. Isso pode durar dias, semanas, meses… Enquanto isso a vida passa, e nós ficamos longe de Deus.

A oração das Horas canônicas tende a remediar esse problema, na medida em que nos “obriga” a parar, de alguma forma, para que rezemos em momentos específicos do dia. Pois não podemos nos dirigir a Deus só quando estamos com ânimo e entusiasmo. Muito pelo contrário: nossa oração — como dito no início deste texto — deve ser perseverante, seja qual for a circunstância em que nos encontremos. Ao nos colocarmos diante de Deus para pronunciar os Salmos que desde sempre os seus filhos recitam, vamos nos surpreender em ver como eles “tocam” a nossa vida, lidando inclusive com a nossa mornidão e desânimo: 

Por que te entristeces, minh’alma,
a gemer no meu peito?
Espera em Deus! Louvarei novamente
o meu Deus Salvador (Sl 42, 5)!

Das profundezas, eu clamo a vós, Senhor,
escutai a minha voz (Sl 129, 1)!

O tempo consagrado a Deus

Afinal de contas, precisamos começar a fazer no tempo o que faremos por toda a eternidade, em terceiro lugar

Quem quer que comece a rezar a Liturgia das Horas facilmente se surpreende com a quantidade de “tempo perdido” que tinha antes de começar esse bom hábito. Nós nos iludimos muito com mil passatempos inúteis, e acabamos gastando boa parte do dia neles. Redes sociais, filmes e seriados na TV, conversas inúteis em WhatsApp e outros aplicativos de mensagens: se somarmos todo o tempo gasto com essas coisas, perceberemos o quanto andamos dispersos e desfocados, e como aquela história de que “não tínhamos tempo” para rezar não passava, na verdade, de desculpa esfarrapada.

A oração das Horas canônicas é, de fato, um prelúdio da vida eterna, onde só viveremos para amar e adorar a Deus. Ao nos levantarmos, rezamos as Laudes. No meio dos nossos trabalhos, a Hora média. O Sol se põe, é hora das Vésperas. Ao repouso precedem as Completas. Deste modo, toda a nossa vida é ritmada com esse louvor incessante a Deus

Essa consagração do tempo é importante porque, embora estejamos no tempo, somos da eternidade. Não fomos feitos para este mundo, para as coisas caducas aqui desta terra. Mas facilmente podemos cair nessa ilusão. A Liturgia das Horas age justamente como uma prevenção. Como ela nos mantém em contato contínuo com Deus, é um lembrete perene de que nossa alma precisa suspirar por Ele:

Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!
Desde a aurora ansioso vos busco!
A minh’alma tem sede de vós,
minha carne também vos deseja,
como terra sedenta e sem água (Sl 62 [63], 2)!

Com isso, a oração das Horas canônicas também nos prepara para receber melhor o sacramento da Eucaristia, em quarto lugar. Pois quem não sabe que um alimento se torna muito mais saboroso quanto maior for o nosso desejo de comê-lo?

A salvação das almas

Em quinto lugar, mas nem por isso menos importante: precisamos santificar a nós e aos que estão sob os nossos cuidados

Quem reza a Liturgia das Horas nunca está sozinho: sua voz se faz uma com a de toda a Igreja. E, se é verdade que por muito tempo essa oração foi identificada apenas com os padres e religiosos — naturalmente, já que essas pessoas estão obrigadas por voto a rezá-la —, o Concílio Vaticano II deu um grande incentivo a que também os leigos a rezassem. (Convenhamos que o uso do vernáculo tornou muito mais acessível o Ofício Divino. O antigo era feito todo em latim, e nem todos têm aptidão, tempo e facilidade para aprender esse idioma e rezar nele.) Por isso, a Instrução Geral da Liturgia das Horas dispõe que: 

Os grupos de leigos, em qualquer lugar em que se encontrem reunidos, são convidados a cumprir essa função da Igreja, celebrando parte da Liturgia das Horas, seja qual for o motivo pelo qual se reuniram: oração, apostolado ou qualquer outra razão. Convém que aprendam a adorar a Deus Pai em espírito e verdade, antes de tudo na ação litúrgica, e tenham presente que, mediante o culto público e a oração, atingem toda a humanidade e podem fazer muito pela salvação de todo o mundo (n. 27).

Como a oração de um simples fiel leigo pode atingir “toda a humanidade” e salvar “todo o mundo”? Ora, através do mistério da comunhão dos santos, que nos une não apenas aos santos do Céu, mas também a todos os nossos irmãos na fé, tanto aos que militam neste mundo quanto aos que padecem no Purgatório [2]! Como Igreja, fazemos parte de uma família, o Corpo místico de Cristo: nele, cada membro cuida do outro como se cuidasse de si próprio, pois é a saúde do organismo inteiro que está em jogo. À Cabeça, que é Cristo, todos nos dirigimos confiantes, pois foi Ele mesmo quem disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11, 9).

Esse trabalho de intercessão é tão importante, que as as Laudes e Vésperas da atual Liturgia das Horas trazem sempre o momento das Preces, no qual podemos apresentar a Deus, além das petições designadas no livro litúrgico, também as que trazemos em nossos corações. 

O perigo do ativismo

Essa obra de pedir a intervenção de Deus nas nossas vidas é muito mais fecunda que as nossas ações, por melhores e sacrificadas que sejam. Pois nós fazemos só o que nos é possível, enquanto com nossa oração nós confiamos as coisas a Deus, que tudo pode.

É justamente para repelir o “ativismo”, em sexto lugar, que serve a Liturgia das Horas. Assim como Deus criou todo o universo em seis dias e no sétimo descansou, também nós precisamos descansar de nossos trabalhos. Mas não descansar no sentido moderno do termo; hoje em dia, o único repouso que as pessoas conhecem é o dos lazeres vãos e o do relaxamento moral. A verdade, porém, é que nada pode trazer mais paz e tranquilidade à nossa vida do que aqueles momentos em que ficamos a sós com Deus, na vida de oração.

É claro que a récita das Horas canônicas não substitui nossa vida de oração íntima com Deus. Trata-se antes de algo a mais, de um cuidado maior que damos a Deus, de pequenos gestos de carinho, pequenos “eu te amo” que lhe dizemos ao longo do nosso dia. A união, no entanto, que acontece na oração íntima é insubstituível — assim como carinhos e belas palavras não substituem o ato conjugal na vida matrimonial.

Repertório para nossa oração pessoal

Mas até nisso a Liturgia das Horas nos ajuda, dando-nos “repertório”, por assim dizer, para nossa oração pessoal. Eis o sétimo e último motivo para rezá-la. Como diz o Apóstolo, “não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26). Ora, que melhor auxílio nos poderia dar a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade do que as palavras que Ela mesma inspirou os autores humanos das Escrituras a escrever?

É nos Salmos, nos Evangelhos, nas Cartas dos Apóstolos que encontramos material para meditação e preces com que invocar a Deus. Como na Liturgia das Horas não rezamos só com a voz (oração vocal), mas também com a mente (oração mental) — do contrário, como lembra S. Teresa, nem se poderia chamar a isso verdadeira oração —, nossa memória vai-se alimentando com o que recitamos e, depois, quando formos para a intimidade do nosso quarto, poderemos falar a Deus com muito mais liberdade e leveza, repetindo os versículos que aprendemos.

No fim das contas, com a oração das Horas canônicas, todo o nosso dia se transforma em um grande hino de louvor a Deus, pois as frases que guardamos se transformam em jaculatórias com as quais podemos nos dirigir a Ele sempre (especialmente os trechos dos Salmos mais frequentes no Saltério, como o 50, o 62, o 109 e todos os das Completas):

Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!
Digo ao Senhor: “Somente vós sois meu Senhor:
nenhum bem eu posso achar fora de vós!

[...]

Ó Senhor, sois minha herança e minha taça,
meu destino está seguro em vossas mãos!
Foi demarcada para mim a melhor terra,
e eu exulto de alegria em minha herança!

Eu bendigo o Senhor, que me aconselha,
e até de noite me adverte o coração. 
Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,
pois se o tenho a meu lado não vacilo (Sl 15 [16], 1s.5-8).

Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia!
Na imensidão de vosso amor, purificai-me!
Lavai-me todo inteiro do pecado,
e apagai completamente a minha culpa!

Eu reconheço toda a minha iniquidade,
o meu pecado está sempre à minha frente.
Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei,
e pratiquei o que é mau aos vossos olhos (Sl 50 [51], 3-6)!

Por onde começar?

Quem compreendeu todos os porquês acima deve estar se perguntando agora: “Tudo bem, mas por onde eu começo?”

Nessa matéria, a internet e os telefones móveis são ferramentas de grande auxílio aos católicos que rezam: com uma simples pesquisa por “Liturgia das Horas”, é possível encontrar uma porção de sites que disponibilizam gratuitamente essa oração pública da Igreja, sem falar dos aplicativos de celular para todos os gostos. 

Apesar de toda essa facilidade e conveniência, seria muito bom possuir o livro físico e rezar com ele, ao invés de simplesmente acessar um app digital em meio à miríade de outras coisas que acessamos com nossos smartphones e computadores. A razão é muito simples: assim como o livro litúrgico é consagrado para o culto a Deus, “é importante fazer desse tempo sagrado uma experiência que está, ao menos em alguma medida, ‘separada’ das coisas comuns”. 

Cada um deve proceder, no entanto, na medida de suas possibilidades. Evidentemente, é muito melhor rezar pelo celular do que não rezar de forma alguma.

A quem quiser, e puder

Permitam-nos, enfim, uma última palavra sobre o antigo Ofício Divino, que vigorou até 1971. Quem quiser fazer a experiência de conhecer um pouco mais a língua latina e rezar as Horas canônicas tal como a Igreja as rezou ao longo da maior parte de sua história, não hesite em acessar o site Divinum Officium e unir-se às comunidades tradicionais que adoram a Deus de acordo com as antigas prescrições litúrgicas, em conformidade com o que estabeleceu o Papa Bento XVI na Summorum Pontificum.

A experiência com o antigo Breviarium Romanum é frutuosa por várias razões, mas uma em particular é digna de menção: a disposição do Saltério ao longo de uma única semana (e não em um mês, como acontece hoje) ajuda-nos a ganhar uma familiaridade ainda maior com os Salmos, a ponto de quem os reza, em questão de pouco tempo, saber de cor o dia e até a hora da semana em que serão recitados. O famoso Salmo 22, por exemplo, é rezado toda quinta-feira, na hora Prima; o 42, com o qual começa a Missa antiga, está sempre nas Laudes da terça-feira; o 138 — “Senhor, vós me sondais e conheceis…” — nunca sai das Vésperas da sexta-feira; e assim por diante. Se no rito novo isso já acontece com alguns Salmos (como dissemos acima), no rito antigo isso se dá com todos eles [3].

Seja, porém, na forma ordinária, seja na forma extraordinária do rito romano, o que interessa mesmo é que rezemos mais, e que rezemos bem. A Liturgia das Horas nos ajuda a fazer as duas coisas: ao mesmo tempo que nos põe incessantemente na presença do Senhor, convocando-nos a cantar o seu louvor “do nascer do sol até o seu ocaso” (Sl 112 [113], 3), constitui uma verdadeira “escola de oração”

E não há notícia de que alguém tenha se arrependido de “fazer matrícula” nela.

Notas

  1. D. Estêvão Bettencourt, Para entender o Antigo Testamento. 4.ª ed. Aparecida: Santuário, 1990, p. 151.
  2. Vale a pena lembrar que, no antigo Ofício Divino, praticamente todas as Horas canônicas terminavam com a célebre oração pelos fiéis defuntos: Fidélium ánimae per misericórdiam Dei requiéscant in pace. Amen, “Que as almas dos fiéis defuntos pela misericórdia de Deus descansem em paz. Amém”.
  3. Outra coisa que salta aos olhos é o peso de determinadas orações antigas, em comparação com as reformadas. Na antiga festa de S. Nicolau, por exemplo, a Igreja pede expressamente a Deus que, eius méritis et précibus, a gehénnae incéndiis liberémur, isto é, “por seus méritos e preces, sejamos livres das chamas do inferno”. Nas Completas antigas, os sacerdotes traçam todas as noites sobre o peito o sinal-da-cruz enquanto dizem: Convérte nos, Deus, salutáris noster, et avérte iram tuam a nobis, “Convertei-nos, ó Deus da nossa salvação, e afastai para longe de nós a vossa ira”. Hoje em dia, palavras como esta raramente se vêem na liturgia, e até o célebre hino Dies irae deixou de ser cantado ao fim do ano litúrgico. (Ele tornou-se facultativo, mas, na prática, sabemos o que isso significa.) Como triste consequência de omissões assim, o que se percebe ao longo das últimas décadas é que certas verdades da fé católica, que deixaram de ser rezadas, também estão deixando de ser cridas — especialmente pelo clero e pelos religiosos, que sempre foram os que mais contato tiveram com a divina liturgia. Um antídoto para esse mal (ou uma “vacina”, se preferirem) talvez seja voltar, senão à letra, pelo menos ao espírito das orações antigas, que refletem, com mais solidez e integridade, o que a Igreja sempre creu e ensinou, em seu Magistério e na vida de seus santos e santas. Os fiéis católicos leigos preservaram a fé, em grande medida, graças às devoções particulares antiquíssimas que conservaram em suas casas, não obstante a desorientação geral que invadiu os templos católicos nos anos seguintes à reforma litúrgica pós-conciliar.

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Uma Quaresma contra o orgulho
Espiritualidade

Uma Quaresma contra o orgulho

Uma Quaresma contra o orgulho

Além de ser o mais pesado dos pecados e uma grande pedra de tropeço no caminho da santidade, o orgulho leva à cegueira espiritual e nos impede de permanecer dóceis à ação do Espírito Santo. Aproveitemos esta Quaresma para combater essa obstinação.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Sou extremamente obstinada. Não tenho a força de vontade que tinha na juventude, mas ainda é uma batalha contínua. Nosso Senhor, em sua misericórdia, teve de me “quebrar” várias vezes. Pessoas obstinadas são incrivelmente independentes; muitas vezes pensamos poder fazer algo sozinhas, ou já o fazemos nós mesmas. Isso nos torna propensas a pecados profundamente arraigados no orgulho. O orgulho é o pecado mais pesado e a principal pedra de tropeço no caminho da santidade, e é por isso que Cristo, de fato, precisa “quebrar” certas almas, inclusive a minha.

O caminho para a santidade não pode ser conquistado pelo orgulho. Só o alcançamos pela humildade, que está na disposição de colocar a Deus no centro de nossas vidas e a sua vontade acima da nossa. Para pessoas obstinadas, é uma luta, já que muitas vezes queremos fazer “do nosso jeito” ou saber por que Deus nos está pedindo algo antes mesmo de o fazermos. O Espírito Santo não irá operar livremente em nós e através de nós enquanto estivermos procurando estar sob controle e pondo nossa vontade no centro de tudo. Em algum momento, todos temos de dizer, como Nosso Senhor no Jardim de Getsêmani: “Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39).

Todos somos fracos. Cada pessoa é capaz de uma escuridão incrível. Parte do que nos leva a julgar os pecados alheios é a crença falsa de que nunca mais cometeremos pecados graves. Esquecemos que, em determinadas circunstâncias, todos somos capazes de cometer pecados terríveis. A ideia de que nunca entraríamos em tal escuridão vem do orgulho e da falsa crença de que estamos no controle de tudo.

Em The School of Jesus Crucified [“A Escola de Jesus Crucificado”], o Frei Inácio do Lado de Jesus afirma:

Quase sempre acontece de os sentimentos interiores de orgulho precederem a prática de pecados graves. Pedro não tinha consciência da própria fraqueza. Preferiu a si mesmo antes dos outros; confiava em si como se fora incapaz de pecar, gabando-se de que nenhuma tentação o separaria de Jesus. Ele nem sequer deu fé à garantia do Divino Mestre de que o iria negar três vezes. Iludido pela vã confiança em suas próprias forças, esqueceu-se de orar e recorrer a Deus; e Deus, em sua justiça, permitiu-lhe cair no castigo de seu orgulho. Não há nada mais perigoso do que confiar na própria força e em sentimentos de fervor! Estamos cheios de malícia e somos capazes de cometer os crimes mais atrozes, a menos que Deus nos ampare.

É verdade que podemos não ser propensos aos mesmos pecados que os outros, mas ainda somos propensos a pecar. Confiar em nossas próprias forças e esquecer nossas fraquezas sempre leva ao pecado do orgulho, o qual nos abre para uma série de outros pecados. O orgulho leva à cegueira espiritual e nos impede de permanecer dóceis à ação do Espírito Santo em nossas vidas.

Por isso é, de fato, misericordioso e justo que Deus nos permita cair por causa dos nossos pecados, especialmente o orgulho. Encontrar-nos com o rosto em terra nos reorienta de volta à Via Crucis e ao caminho da santidade que todos somos chamados a percorrer. Mesmo que tenhamos certeza do caminho que Deus nos está chamando a trilhar, podemos facilmente cair no orgulho ao decidirmos, por nós mesmos, qual a melhor forma de responder ao chamado de Deus. A maneira como percorremos o caminho é tão essencial quanto o próprio caminho. É por isso que, muitas vezes, pessoas com força de vontade precisam cair de novo e de novo. Cada queda funciona como o refinamento e o distanciamento necessários da nossa própria vontade. Cada queda nos leva a uma maior humildade.

A Quaresma é uma oportunidade para pedir a Deus que nos revele onde estamos deixando de colocar a sua vontade acima da nossa. É o momento de entrar na escuridão que habita em nós e permitir que Cristo faça brilhar sua luz reparadora nos lugares em que nos escondemos por medo e vergonha. As práticas quaresmais da oração, do jejum e da esmola nos livram das distrações e do autoengano que frequentemente usamos para fugir de Deus.

“O Homem das Dores nos braços da Virgem”, de Hans Memling.

De muitas maneiras a Quaresma nos deve “quebrar”. Deve ser difícil. Este tempo é um momento de enfrentarmos a nós mesmos e ao maligno, para que possamos dedicar-nos totalmente ao seguimento de Cristo. Aprendi com o passar dos anos que não é fácil se deixar “quebrar”. Na verdade, é doloroso. Com frequência, evitamos esse processo ou buscamos falsificações que nos preservam de enfrentar as dificuldades necessárias ao crescimento em santidade. Entretanto, se realmente desejamos a santidade e a promessa de vida eterna, não há outro caminho.

Temos de morrer para nós mesmos, e isso significa — por meio da ação do Espírito Santo — conhecer a nós mesmos, especialmente nossas fraquezas e falhas de personalidade. No meu caso, ter obstinação é um dom apenas quando está ordenado a Deus; caso contrário, as pessoas obstinadas tendem a “passar por cima” dos que estão à sua volta. Todos somos obstinados às vezes e vemos o rastro destrutivo que isso deixa para trás. Mesmo que o processo de autoconsciência seja doloroso, sabemos que é realizado com o fogo do amor de Deus. Podemos confiar que, se nos submetermos a Ele, a alegria estará à nossa espera do outro lado da escuridão que, neste momento, precisamos atravessar.

Uma das maneiras que encontrei para ter clareza de visão sobre minha pessoa e a batalha espiritual que se desenrola ao meu redor é pedir a orientação de Nossa Senhora das Dores. Como passamos grande parte da Quaresma voltados para a Paixão de Nosso Senhor, agora é momento de entrar no doloroso e Imaculado Coração de Maria, onde podemos encontrar refúgio e verdadeiro conhecimento sobre nós mesmos e tudo o que Deus nos pede. Ela caminha para a escuridão conosco. Como Mãe dolorosa, está conosco no deserto. Ela é a nossa Mãe humilde, que ajudará a nos afastarmos do orgulho e nos submetermos à vontade de Deus e ao seu desígnio para cada um de nós.

Esta Quaresma é uma oportunidade para nos esvaziarmos de nossa própria obstinação e orgulho, para que possamos ser discípulos fiéis de Jesus Cristo. Não será um processo fácil; mas, com a nossa Mãe dolorosa a nos conduzir à união com Deus através da nossa própria escuridão, encontraremos o caminho da alegria e da paz. Assim sairemos desta Quaresma livres dos pecados, fraquezas e falhas de caráter que nos assolam. Nas próximas semanas, Nossa Senhora das Dores nos pode conduzir no caminho da perfeição através do deserto em que nos achamos.

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Sete Salmos contra os pecados capitais
Oração

Sete Salmos
contra os pecados capitais

Sete Salmos contra os pecados capitais

Você sabe o que são os Salmos penitenciais? Rezando os cânticos de Davi ao longo dos séculos, a Igreja identificou sete em especial para aumentar em nós o arrependimento dos pecados e o espírito de luta contra as más inclinações de nossa carne.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Já faz muito tempo que os Salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 são associados a devoções penitenciais. Ninguém menos que Santo Agostinho os teria recitado em seu leito de morte. Mas eles também são recomendados no combate aos sete pecados capitais — soberba, avareza, ira, luxúria, gula, inveja e preguiça —, sendo cada um desses vícios associado a um salmo em particular. 

As fórmulas de oração abaixo foram retiradas da obra Coeleste Palmetum, do Pe. Wilhelm Nakatenus (1617-1682); sua versão latina encontra-se à disposição no site Preces Latinae; e a tradução portuguesa a seguir é de nossa equipe. 

Por tratar-se de uma devoção privada, essas orações podem ser rezadas da forma como cada fiel achar mais conveniente: quem percebe em si uma inclinação maior a determinado pecado capital, por exemplo, pode rezar apenas o salmo e a oração correspondentes a ele; quem deseja incorporar essa prática às suas orações vocais habituais, pode rezá-la por completo etc.


Antífona. — Não recordeis, Senhor, os nossos delitos, ou os de nossos pais, nem tomeis vingança de nossos pecados.

1) Reza-se o Salmo 6. Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a soberba. — “Nosso Senhor Jesus Cristo humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz. E eu, vilíssimo verme da terra, eu que sou pó e cinza, o maior dos pecadores, que mil vezes mereci o inferno, não me envergonho de ser orgulhoso? Sede-me propício, Senhor: reconheço e detesto minha execrável arrogância. Não me lanceis, eu imploro, com o soberbo Lúcifer e seus asseclas no abismo do inferno. Convertei-vos e livrai minha alma, ajudai-me e salvai-me por vossa misericórdia! Preferi doravante viver rejeitado na casa de Deus a morar nas tendas dos pecadores (cf. Sl 83, 11)”.

2) Reza-se o Salmo 31(32). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a avareza. — “Que há para mim no céu e que desejei de vós sobre a terra, Deus de meu coração e minha herança para sempre? Não se sacia o olho com o que vê, nem basta ao ouvido o que ouve: serei saciado quando aparecer a vossa glória! Ai de mim, que com tanto esforço tenho servido até agora a Mamon! De que me aproveitará lucrar o mundo inteiro, se vier a perder minha alma? Dormiram o seu sono todos os opulentos, e nada encontraram em suas mãos. Confessarei contra mim a minha injustiça ao Senhor, e vós perdoareis, espero, a impiedade de meu pecado. Do pobre doravante terei compaixão, hei de restituir o que devo e me consagrarei mais ferventemente ao vosso serviço. Ajudai-me, Senhor, vós que cumulais de benefícios a minha vida (cf. Sl 102, 5)”.

3) Reza-se o Salmo 37(38). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a ira. — “‘Um homem guarda rancor contra outro homem, e pede a Deus a sua cura! Não tem misericórdia para com o seu semelhante, e roga o perdão dos seus pecados! Quem, então, lhe conseguirá o perdão de seus pecados?’ (Ecle 28, 3ss). Com estas palavras, Senhor, me falais pelo servo, vosso filho, Sirac. E eu, de agora em diante, acaso ousarei alimentar ira ou ódio contra alguém? Perdoai-me, Senhor, perdoai-me minha malícia e obstinação, na qual perseverei até hoje. De coração, desculpo e perdoo agora o que quer que contra mim já tenham feito; e rogo suplicante, Senhor, que em vossa cólera não me repreendais nem em vosso furor me castigueis. Oxalá, como um surdo, doravante não ouça e, como um mudo, não abra mais a boca, quando meus inimigos contra mim se levantarem e me fizerem violência os que perseguem minha alma. Não me abandoneis, Senhor Deus meu, não vos aparteis de mim, ‘porque vós sois a minha esperança’ (Sl 70, 5)”.

4) Reza-se o Salmo 50(51). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a luxúria. — Pai, pequei contra o céu e contra vós, por isso não sou digno de ser chamado vosso filho. Que farei eu, miserável? Não permanecerá o vosso Espírito num homem carnal. Ah! tende piedade de mim, tende piedade. À vossa bondade atribuo que não me conte entre os tantos milhares de réprobos a quem a abominável peste da luxúria ainda hoje precipita no inferno. Irei eu pecar novamente? Hei de conculcar outra vez, por amor a desejos bestiais, o vosso preciosíssimo Sangue, ó Jesus, derramado em purificação de meus crimes? Longe de mim, ó Jesus, longe de mim! Peço-vos, ó Filho da castíssima Virgem Maria: livrai-me do espírito de fornicação. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. De vossa face não me rejeiteis nem me priveis de vosso Santo Espírito”.

5) Reza-se o Salmo 101(102). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a gula. — “Ai de mim, miserável, que vos abandonei a vós, Senhor Deus, fonte de água viva, e abri para mim cisternas de prazeres terrenos, cisternas rachadas que não podem reter água (cf. Jr 2, 13)! Em verdade, esqueci-me de comer meu pão, o pão da vida, que contém em si todo o deleite e a suavidade de todo sabor, e busquei encher o ventre com bolotas de porcos (cf. Lc 15, 16). Ainda tinham comida em suas bocas os filhos de Israel quando a ira de Deus caiu sobre eles: e a mim tantas vezes me perdoastes, que pela intemperança da comida e da bebida desfigurei em mim vossa imagem, ó Deus, fazendo-me semelhante às bestas! Oxalá de agora em diante eu coma cinzas como se fossem pão e misture lágrimas à minha bebida; que o meu alimento seja fazer em tudo a vossa vontade, vós, que nos ‘dais de beber das torrentes de vossas delícias’ (Sl 35, 9)”.

6) Reza-se o Salmo 129(130). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a inveja. — “De tal modo, meu Deus, amastes o mundo, que destes o vosso Filho unigênito, para que todo o que crê em vós não pereça, mas tenha a vida eterna. Vós fazeis o Sol nascer sobre bons e maus e cair a chuva sobre justos e injustos. E eu, enquanto a fortuna toca a outros, rasgo-me de inveja e desejo que tudo suceda segundo a minha vontade, mas entristeço-me com a mínima felicidade do próximo? Oh, malícia desumana! Oh, vírus infernal! Perdoai-me, clementíssimo Pai, que eu até hoje tenha pecado nisso. Benigna é a vossa misericórdia. Fazei, a partir deste momento, que eu vista, como um eleito de Deus, vísceras de misericórdia e benignidade e, acima de tudo, que eu busque ter caridade, que é o vínculo da perfeição (cf. Col 3, 14)”.

7) Reza-se o Salmo 142(143). Ao final, diz-se um Glória, a Antífona do início e, por fim, a seguinte oração contra a acídia. — “Quando, meu Deus, começarei, como é justo, a amar-vos e louvar-vos de todo o meu coração, com toda a minha alma e com todas as minhas forças, a vós que com caridade perpétua me amastes e me desposastes para sempre? Ai! Dormitou minha alma por tédio. Ai de mim, porque tenho sido até agora tão tíbio no vosso serviço, que com justiça posso temer que comeceis a vomitar-me de vossa boca (cf. Ap 3, 16). Mas tende piedade, Senhor: ‘Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de vós. Estendo para vós os braços: minha alma, como terra árida, tem sede de vós. Apressai-vos em me atender, Senhor, pois estou a ponto de desfalecer’; o vosso bom Espírito, porém, me conduzirá pelo caminho reto. ‘Por amor de vosso nome, Senhor, conservai-me a vida’ (Sl 142, 11)”.

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O fantasma do arianismo na Igreja de hoje
Doutrina

O fantasma
do arianismo na Igreja de hoje

O fantasma do arianismo na Igreja de hoje

Como ervas daninhas, as heresias vêm e vão. A questão é que elas voltam de maneiras diferentes. É o caso do arianismo, que hoje chega até nós de modo escondido, como um parasita, e disfarçado, sob a forma de humanismo materialista.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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[Este texto é de autoria do Pe. Dwight Longenecker. Foi vertido à língua portuguesa por nossa equipe.]

As heresias são como ervas daninhas. Elas continuam voltando. A questão é que elas voltam de formas diferentes

No século IV, o arianismo fazia parte do grande debate sobre a divindade de Cristo e, portanto, sobre a definição do dogma da Santíssima Trindade. Essa heresia começou com o ensino de Ário em meados do século III e se espalhou por todo o Império. Missionários da parte oriental foram para o norte, e as tribos góticas foram convertidas ao arianismo.

O arianismo se desenvolveu não apenas como um problema teológico, mas também como um grande cisma. Os arianos tinham suas próprias igrejas, seus próprios bispos e seus próprios poderes temporais — como o rei gótico Teodorico, o Grande, que governava a Itália por volta do ano 500 — para os apoiar. No cerne do arianismo estava uma negação da cristologia nicena. Em resumo, eles acreditavam que Jesus era o “Filho de Deus”, mas não a Segunda Pessoa da santa e indivisa Trindade, que assumiu a carne humana de sua bem-aventurada Mãe. Ele era, em vez disso, um ser criado — um semideus e, portanto, subordinado a Deus Pai.

S. Atanásio, que lutou contra o arianismo, notou que os arianos eram teólogos sutis. Eles usavam uma linguagem ambígua e falavam em termos vagos. Estavam mais interessados no cuidado pastoral do que no dogma. Também eram, em sua maioria, os mais letrados e das classes dominantes. O arianismo era uma forma de cristianismo muito mais confiável. Um Jesus como ser criado, subordinado ao Pai, era mais palatável intelectualmente do que a autêntica doutrina da Encarnação, que levou a dificuldades intelectuais a respeito da Santíssima Trindade.

Hoje, o arianismo assume uma forma diferente e chega até nós sob a forma de humanismo. Por “humanismo” quero dizer aquele sistema de crenças que toma o homem como medida de todas as coisas. Este humanismo é um conglomerado de diferentes crenças modernistas, mas o resumo de tudo é o materialismo: este mundo físico é tudo o que existe, a história humana é tudo o que importa e o avanço da raça humana, neste reino material, é a única coisa pela qual devemos lutar.

O arianismo atual é uma interpretação do cristianismo de acordo com essa filosofia materialista e humanista. Claramente, Jesus Cristo, como o Filho divino de Deus e Segunda Pessoa coeterna da Santíssima Trindade, não se encaixa aqui. Em vez disso, Jesus seria um bom mestre, um rabino sábio, um belo exemplo, um mártir de uma causa nobre. No máximo, ele seria um ser humano “tão realizado e autorrealizado que ‘se tornou divino’”. Em outras palavras, “Jesus seria um ser humano tão completo que nos revela a imagem divina, à qual todos fomos criados — e, portanto, nos mostra como Deus é”. Em certo sentido, essa “divinização” de Jesus teria acontecido como resultado das graças que recebeu de Deus, da vida que levou e dos sofrimentos que suportou.

Esse cristianismo diluído é a forma moderna do arianismo. O contexto cultural da heresia e sua expressão são diferentes, mas a essência dela é a mesma de sempre: “Jesus Cristo é um ser criado. Sua ‘divindade’ é algo que se desenvolveu ou foi adicionado à sua humanidade por Deus”.

A diferença entre Ário e os hereges modernos é que Ário foi realmente explícito em seus ensinamentos. Os hereges modernos não. Eles habitam nossos seminários, nossos mosteiros, nossas casas paroquiais e presbitérios. Eles são do clero modernista que domina as principais denominações protestantes, mas também são numerosos dentro da Igreja Católica. Eles não são uma seita ou denominação separada. Ao contrário, eles infestam a verdadeira Igreja como um parasita horrível.

Muitos deles nem mesmo sabem que são hereges. Eles foram mal catequizados desde o início. Suas crenças sobre Jesus Cristo permaneceram confusas e fora de foco. Eles mantêm suas crenças em uma névoa sentimental, na qual sentem, de modo muito vago, que o que acreditam é “cristão”, mas não querem se aprofundar. Isso acontece porque eles foram ensinados a ver o dogma como um causador de divisão. Eles mantêm suas crenças deliberadamente vagas e focam nas “preocupações pastorais”, para evitar questões difíceis.  O dogma faria parte de uma época anterior na Igreja; hoje, nós amadurecemos e superamos esse tipo de questiúncula. “Deus, afinal, não pode ser colocado em uma caixa. Ele é maior do que tudo isso…”.

Apesar disso, eles se sentem totalmente à vontade recitando o Credo niceno todas as semanas (N.T.: onde ele é recitado todas as semanas, claro; no Brasil, o costume é que se recite o Credo apostólico) e celebrando o Natal do Filho de Deus e o grande Tríduo Pascal — usando todas as palavras do cristianismo niceno tradicional, enquanto reinterpretam essas palavras de uma forma que agrade a Ário. Então, quando falam de Jesus Cristo, o Filho divino de Deus, o que realmente querem dizer é o que eu escrevi acima: “Que, de uma maneira linda, Jesus era um ser humano tão perfeito que nos revela como Deus é”.

A Virgem Maria, então, se torna “uma boa e pura moça judia que lidou com uma gravidez não planejada com grande coragem e fé”. A crucificação se torna “a trágica morte de um jovem e corajoso defensor da paz e da justiça”. A ressurreição significa que, “de alguma forma misteriosa, ao seguir seus ensinamentos, os discípulos de Jesus continuaram a acreditar que Ele estava vivo em seus corações e na história”.

Agora, o que realmente me interessa é que esses arianos modernos (e tenho certeza de que o mesmo se pode dizer da versão ariana do século IV) não são pecadores perversos e imundos. São boas pessoas. São pessoas articuladas e educadas. São pessoas abastadas. São pessoas bem conectadas. São pessoas “cristãs” boas, sólidas e respeitáveis. Caramba, até mesmo os imperadores eram arianos em seus dias! Eles eram as pessoas no topo da hierarquia socioeconômica. Além disso, sua versão ariana da fé parece muito mais razoável, sensível e crível do que a ortodoxia intelectualmente escandalosa de Atanásio, Basílio, Gregório e da Igreja histórica através dos tempos.

Reconheço esses hereges pelo que são: lobos em pele de cordeiro. Eles podem se apresentar como bons cristãos, respeitáveis, devotos e sinceros. Tudo bem. Mas são hereges. São mentirosos, e as pessoas que mais acreditam em suas mentiras são eles mesmos. Se conseguirem o que querem e suas heresias sutis prevalecerem, destruirão a fé.

De minha parte, quero manter a fé histórica de Niceia com Atanásio, Basílio e Gregório e com os santos e mártires. Não me importo nem um pouco se o mundo pensa que essa fé é “antiga” ou “esquisita”, “infelizmente rígida”, “dogmática demais” ou “inacessível aos cristãos modernos”. Os arianos provavelmente usaram todos esses argumentos.

Eu afirmo o Credo niceno: não me importo em dizer “consubstancial com o Pai”, mantenho a clareza e simplicidade dessas palavras e não acho que elas precisem ser “reinterpretadas”.

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Estamos protegidos contra os demônios?
Espiritualidade

Estamos protegidos
contra os demônios?

Estamos protegidos contra os demônios?

“Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta.”

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Trazemos a seguir o relato de mais um caso acompanhado pelo Monsenhor Stephen Rossetti, exorcista da Arquidiocese de Washington, e publicado em seu blog Catholic Exorcism. A tradução para o português foi feita por nossa equipe:

“Júlia” cresceu numa boa família católica. Ela foi para a faculdade e começou a namorar um jovem que estava fortemente envolvido com ocultismo. Ela participava desses rituais e também adotava outros comportamentos pecaminosos.

Pela graça de Deus, na universidade ela teve contato com um grupo de jovens católicos bastante engajados na Igreja, e isso mudou sua vida. Ela terminou com o namorado, começou a assistir à Missa e buscou a Confissão. As coisas estavam melhorando.

Poucos meses depois de sua conversão, ela acordou pela manhã com marcas horríveis nas costas. Parecia que uma besta lhe tinha arranhado. Demônios começaram a atacá-la. À noite, eles a assediavam e abusavam dela. Ela tinha dificuldade para entrar numa igreja ou ir à Missa. Ela sabia que seu passado voltara para atormentá-la.

Duas amigas da universidade queriam ajudar. Elas entraram em seu quarto à noite e puderam ver o que estava acontecendo. Elas decidiram dormir no quarto dela para ajudá-la durante os ataques demoníacos.

Infelizmente, essas jovens, embora bem intencionadas, não estavam espiritualmente preparadas para o que encontraram. Uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual e, pouco depois, deixou a universidade. A outra ficou tomada de raiva, ameaçou cometer suicídio e também deixou a universidade. A família de Júlia recomendou-lhe um exorcista, que iniciou o rito.

Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta. Os pais eram católicos fervorosos.

No capítulo 6 da Carta aos Efésios, S. Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (v. 11). Aquelas duas jovens não estavam preparadas. Os pais de Júlia, sim.

A fé em Deus e em Jesus Cristo é a armadura que nos protege. À medida que a fé se esvai nestes tempos secularizados, temo que nossos lares e famílias estejam desprotegidos. À medida que a fé se esvai em nossa nação, o que será dela?

O que nos deve chamar a atenção nesse relato, em primeiro lugar, é como as pessoas, sobretudo os mais jovens, por falta de discernimento na hora de fazer amizades, têm se aproximado do mal e se tornado suscetíveis a ele. Em outros tempos, as famílias costumavam ter critério para admitir estranhos em seu convívio — e ensinavam seus filhos a fazer o mesmo: “Diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Não se começa uma amizade, muito menos um relacionamento amoroso, com alguém, só porque aparecem afinidades circunstanciais ou gostos marginais em comum. As pessoas são mais, muito mais, do que os jogos com que se divertem, as músicas que escutam ou as séries a que assistem. Ser amigo, no sentido verdadeiro do termo, é compartilhar convicções filosóficas, religiosas e morais fundamentais, que tocam o próprio sentido da existência humana.

O adágio bíblico é conhecido: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). No caso de Júlia, uma má companhia foi o suficiente não só para corrompê-la, mas para deixar marcas ainda mais profundas em sua alma.

Em segundo lugar, é sempre bom lembrar: diferentemente de Deus, os demônios não são seres onipotentes; tudo o que fazem está condicionado à ação permissiva de Deus e à sua bondosa Providência. Tampouco eles têm o poder de “obrigar” as pessoas a fazer o que não querem. Assim, quando lemos, das amigas de Júlia, que uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual, e outra chegou a tentar suicídio, ninguém pense que isso se deva a uma espécie de influência demoníaca irresistível. Mesmo as mais intensas tentações e obsessões demoníacas não são capazes de nos tirar o livre-arbítrio. O próprio Autor Sagrado, quando registra que “Satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes” (Lc 22, 3), não quis dizer com isso que o traidor de Cristo havia se tornado uma “marionete” nas mãos do inimigo. O pecado de Judas foi consciente e deliberado: ele sabia o que estava fazendo. Se o Evangelho se refere aqui a uma possessão literal, pode muito bem ser que ela tenha acontecido até como consequência da gravidade do pecado cometido por Judas. 

Por último, a lição principal de toda a história: a importância da bênção da Igreja, dos sacramentais, das imagens sagradas e da oração para proteger-nos da ação do inimigo. Nunca é demais insistir nesta passagem, que a liturgia da Igreja põe toda terça-feira nos lábios de seus sacerdotes, nas Completas: “Sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8). Se dormimos, o inimigo de nossas almas não dorme. Se não nos protegemos, ele investe contra nós e sai bem sucedido. A batalha espiritual já está acontecendo ao nosso redor. Fingir que ela não é real, ou ignorá-la, só será pior para nós. Precisamos nos armar, com tudo o que Deus nos concedeu através de sua Igreja, para sairmos vitoriosos nesse combate. 

Isso significa que devemos, sim, munir-nos de água benta e de outros materiais abençoados — como imagens, velas e terços —, sem nunca esquecer, no entanto, que a principal proteção contra o mal nós a levamos na alma, quando cremos em Deus e procuramos rezar, receber os sacramentos da Igreja e levar uma vida conforme os Mandamentos. Uma coisa não exclui, nem diminui a importância da outra, pois somos formados de corpo e alma

Por isso, vale a pena perguntar: a sua residência já foi abençoada por um padre? Você se preocupa em pedir a um sacerdote que abençoe as imagens ou velas que compra para rezar? Tem sempre consigo, em casa, um pouco de água benta? 

Caso tenha respondido “não” a alguma das perguntas acima, comece hoje mesmo a cultivar o hábito contrário e deixe-se cercar pela bênção de Cristo, que Ele quer derramar em nós não através de curandeiros espíritas e benzedeiros sem credenciais — pois isso é superstição [1] —, mas através dos sacerdotes da Igreja, cujo ministério Ele mesmo instituiu para levar ao mundo a sua salvação.

Notas

  1. Para consultar qual seja a posição da Igreja perante o fenômeno do curandeirismo, cf. Fr. Boaventura Kloppenburg, Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, pp. 34-36.

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