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São José, o patriarcado e os homens de hoje
Espiritualidade

São José,
o patriarcado e os homens de hoje

São José, o patriarcado e os homens de hoje

O patriarcado é uma coisa ruim? Entenda nesta matéria por que as famílias precisam de homens e como eles podem se tornar pais segundo o coração puríssimo de São José.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Março de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Na oitava da solenidade de São José, a liturgia da Igreja põe-nos diante dos olhos o mistério da Encarnação do Verbo de Deus, com a solenidade da Anunciação. E tudo isso em plena Quaresma. É como se nossos pés se detivessem às portas de Jerusalém... e voltássemos a Nazaré, à infância do Salvador, ao Natal.

Nestas linhas, porém, queremos meditar antes sobre um dado da natureza humana. É que a figura de São José, ao lado de Maria e de Jesus — das quais temos abundantes exemplos na arte sacra — vem nos recordar, especialmente a essa nossa época louca e revolucionária, que as famílias precisam de pais, de figuras masculinas (homens!) que as conduzam e liderem; vem nos lembrar que o patriarcado (não obstante a distorção moderna sofrida pelo termo) é uma coisa boa e deve ser conservado.

Muitos argumentos poderiam ser empregados aqui para confirmar essa verdade, argumentos extraídos da simples observação da natureza humana, vindos da psicologia, da antropologia e de outras ciências. Mas, a princípio, às pessoas da Igreja, lembremos tão somente que Deus, querendo vir à terra, confiou-se à responsabilidade de um patriarca; e ainda Ele, moldando a criatura mais perfeita que jamais existiu — a Virgem Maria —, confiou-a igualmente a um homem. Os dois maiores dons com que a humanidade seria agraciada, portanto, sob a tutela de um varão, e a ele submissos. Eis a nobilíssima missão de São José. Eis a verdade que o mundo moderno, se não faz questão de negar, faz o possível ao menos para calar, ignorar ou deixar que morra no esquecimento.

De fato, a releitura que muitos em nossa época, sem fé, tentam fazer da Encarnação é que Jesus teria sido fruto de uma “produção independente”. Numa tentativa patética talvez de justificar a desestruturação por que passam hoje as famílias, a imagem que se vende muitas vezes de Maria Santíssima é a de uma “mãe solteira”, desamparada, que dá à luz um filho nos escombros de uma pobre gruta e sem assistência humana quase nenhuma — São José sempre à parte, sempre coadjuvante, sempre deixado de lado.

À parte os elementos de verdade contidos nessa narrativa — pois é fato que o Filho de Deus quis descer à terra e, na falta de hospedagem, abrigar-se na simplicidade de uma estrebaria —, está muito longe da verdade insinuar que tenha sido nulo ou desprezível o papel de São José no mistério da Encarnação. Vale lembrar que um anjo visitou-lhe em sonho, instruindo-o sobre o que deveria fazer em relação à mulher e ao Menino e, além disso, nas palavras de São Beda, o Venerável, sua escolha foi providencial ad famam Mariae conservandam, isto é, “para salvaguardar a reputação de Maria” [1]. Sim, porque embora os esponsais de Maria e José deixassem como que “velada” a concepção virginal de Cristo, explica Santo Ambrósio, “o Senhor preferiu que alguns duvidassem da sua origem antes que do pudor de sua Mãe” [2]. Em suma, como escreve o Padre Federico Suárez:

Para um cristão que acredita em Cristo, que crê que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o fato de Deus ter escolhido José para esposo da Virgem Maria e pai legal de Jesus é motivo suficiente para pensar que, apesar de tudo, talvez não tenha sido um homem tão vulgar e comum, uma vez que o próprio Deus o escolheu — mais ainda, o criou — para desempenhar uma das missões mais difíceis e de maior responsabilidade jamais confiada a um homem [3].

O fato de ter sido um homem a zelar pela Sagrada Família, no entanto, de ter sido um homem a conduzi-la de Nazaré a Belém, e dali ao Egito, e dali de volta a Nazaré... não é mais tão óbvio quanto noutras épocas. Existe até mesmo a tentação, por parte de alguns, de relegar o papel masculino na família e na sociedade a uma mera “construção social”, tão passível de transformação quanto um hábito ou qualquer moda do momento.

Mas, não estivéssemos cegados por mentiras como a ideologia de gênero, nós seríamos capazes de ver inscrita na natureza uma ordem e uma harmonia irretocáveis: homem e mulher foram colocados desde o princípio para reinar no mundo criado, um com a cabeça e outra com o coração, um com a razão e outra com os sentimentos, um com a força física que desafia e outra com a força emocional que consola, complementaridade indispensável para a formação integral do ser humano.

É por isso que, antes de falar propriamente das virtudes de São José, importa falarmos primeiro de sua virilidade e de seu papel como pai e esposo; importa falarmos simplesmente de sua presença, já que nossa sociedade experimenta cada vez mais a ausência dos homens, justamente nos postos que mais exigiriam sua atuação…

“São José com o Menino Jesus”, de Murillo.

Sim, porque não adianta rebelar-se contra a ordem natural das coisas e pedir, seja dentro de um movimento social institucionalizado, seja através de gestos e palavras no dia-a-dia, a extinção do patriarcado ou a abolição da masculinidade. “A presença de estruturas mundanas de dominação bruta e egoística deveria não manchar, mas sim acentuar fortemente a honra e o esplendor de um patriarcado cristão caracterizado pelo serviço amoroso e pela liderança sacrificial” [4].

Dizendo de outro modo, não é porque há homens que bebem, batem em suas esposas e não educam os seus filhos que se deve pedir o fim da família e da união entre homem e mulher. O marxismo viu na chamada “família burguesa” uma estrutura essencial de dominação, mas só o fez porque olhou para a família a partir de seus vícios e de sua degradação, ao invés de olhar para o projeto original do Criador e para as famílias que o colocaram em prática.

Da parte dos homens, cabe, é claro, tomar o cuidado de não repetir os mesmos erros pelos quais caíram e fracassaram, principalmente em suas casas, tantos de nossos pais. Se sobram no mundo (e à nossa volta, bem próximos de nós) homens adúlteros, beberrões, covardes, violentos, ladrões e moles, sejamos nós o contrário de tudo isso e lutemos com afinco para ser puros (não só no corpo, mas principalmente de coração), sóbrios, corajosos, pacíficos, honestos e fortes. Essa é a melhor forma (se não a única) de lutar contra a ideologia feminista que propugna pela “liberação” e o “empoderamento” da mulher e pelo fim da autoridade paterna. De nada adianta, de fato, vencer-lhes os argumentos, se continuamos a reforçar, com nossos atos, exatamente as razões pelas quais elas odeiam o patriarcado — e que no fundo não constituem o patriarcado cristão, mas justamente a sua corrupção.

“Corrompeu-se o patriarcado, então?”, alguém poderá indagar. “E quando foi que ele existiu, por assim dizer, em sua forma pura?”

A resposta a essa pergunta infelizmente não é das mais animadoras, pois, mesmo nos tempos em que o cristianismo era o “fermento” da sociedade, o sexo masculino como um todo sempre teve grande dificuldade em observar a palavra de Cristo que diz: “Todo aquele que rejeita sua mulher e desposa uma outra, comete adultério” (Mt 19, 9). “É um triste fato”, nesse sentido, “que nos antigos centros da cristandade, e notavelmente em países de predominância católica, ter uma amante fosse, e ainda seja, um estilo de vida aceito” [5]. De fato, essa fidelidade de que fala o Evangelho sempre foi uma virtude de poucos homens, de modo que não é exagero algum afirmar que, historicamente falando, “nunca antes houve um patriarcado cristão culturalmente estabelecido” [6].

Nosso parâmetro, no entanto, não é esta ou aquela época da história; nós não nos devemos guiar pela “média” do que foram os homens de outros tempos e de outros lugares. (Do contrário, seríamos apenas “medianos”, ou pior: medíocres.) Nossa medida deve ser, sempre, os poucos corações que seguiram o Evangelho de Cristo, os poucos homens que foram patriarcas no verdadeiro sentido da palavra, pois é de Deus que provém toda paternidade no céu e na terra (cf. Ef 3, 15). Nosso modelo de patriarcado não é o coração impuro de Adão, mas o Sagrado Coração de Jesus, novo Adão; não é o coração decaído de nosso primeiro pai, mas sim o coração puríssimo do Patriarca da Sagrada Família, São José. Eis os homens que devemos imitar, eis o tipo de coração a que devemos elevar os nossos.

Para começarmos essa ascensão, porém, para implantarmos em nossa época um patriarcado realmente cristão, comecemos do básico. É evidente que abandonar a “gandaia” não é tudo. Um homem que não trai a sua esposa, que não gasta as suas horas no boteco, que não espanca sua companheira e que tampouco dilapida o patrimônio da família não está fazendo, no fundo, mais do que a sua obrigação. Mas ninguém deve subestimar a importância de falar sobre essas coisas, pois são esses pecados grosseiros que aprisionam a maior parte da humanidade — e, custa-nos dizer, maior parte das pessoas que vão à igreja também.

Noutras palavras, para que os seres humanos vivam plenamente o amor, é preciso que eles passem pela experiência da “primeira liberdade”, como diz Santo Agostinho:

A primeira liberdade consiste em estar isento de crimes [...] como são o homicídio, o adultério, a fornicação, o furto, a fraude, o sacrilégio e assim por diante. Quando alguém começa a não ter estes crimes (e nenhum cristão os deve ter), começa a levantar a cabeça para a liberdade, mas isto é apenas o início da liberdade, não a liberdade perfeita [7].

Se queremos resgatar a masculinidade, portanto, comecemos com o básico: deixando a vida de pecados mortais. Ninguém se iluda com uma “restauração do patriarcado” que prescinda de conversão, que prescinda de uma vida interior, que prescinda de uma mudança de mentalidade e de uma vida cristã seriamente vivida. Ninguém pode vencer a sua natureza decaída contando com as próprias forças. Ninguém pode viver o dom de uma paternidade autêntica se não for, primeiro, obediente ao nosso Pai dos céus.

Foi esse o grande segredo de São José. E é também esse o caminho para sermos patriarcas como ele foi.


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Referências

  1. Citado em Suma Teológica, III, q. 28, a. 1, ad 1.
  2. Id., III, q. 29, a. 1, ad 2.
  3. José, Esposo de Maria, Lisboa: Rei dos Livros/Prumo, 1986, p. 15.
  4. G. C. Dilsaver, The Three Marks of Manhood: How to Be Priest, Prophet and King of Your Family, Charlotte: TAN Books, 2012, viii.
  5. Ibid., p. 100.
  6. Ibid., p. 101.
  7. In Iohannis Evangelium Tractatus, 41, 9-10: CCL 36, 363, citado por S. João Paulo II em Veritatis Splendor, 6 ago. 1993, n. 13, nota 23.

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Uma Quaresma contra o orgulho
Espiritualidade

Uma Quaresma contra o orgulho

Uma Quaresma contra o orgulho

Além de ser o mais pesado dos pecados e uma grande pedra de tropeço no caminho da santidade, o orgulho leva à cegueira espiritual e nos impede de permanecer dóceis à ação do Espírito Santo. Aproveitemos esta Quaresma para combater essa obstinação.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Sou extremamente obstinada. Não tenho a força de vontade que tinha na juventude, mas ainda é uma batalha contínua. Nosso Senhor, em sua misericórdia, teve de me “quebrar” várias vezes. Pessoas obstinadas são incrivelmente independentes; muitas vezes pensamos poder fazer algo sozinhas, ou já o fazemos nós mesmas. Isso nos torna propensas a pecados profundamente arraigados no orgulho. O orgulho é o pecado mais pesado e a principal pedra de tropeço no caminho da santidade, e é por isso que Cristo, de fato, precisa “quebrar” certas almas, inclusive a minha.

O caminho para a santidade não pode ser conquistado pelo orgulho. Só o alcançamos pela humildade, que está na disposição de colocar a Deus no centro de nossas vidas e a sua vontade acima da nossa. Para pessoas obstinadas, é uma luta, já que muitas vezes queremos fazer “do nosso jeito” ou saber por que Deus nos está pedindo algo antes mesmo de o fazermos. O Espírito Santo não irá operar livremente em nós e através de nós enquanto estivermos procurando estar sob controle e pondo nossa vontade no centro de tudo. Em algum momento, todos temos de dizer, como Nosso Senhor no Jardim de Getsêmani: “Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39).

Todos somos fracos. Cada pessoa é capaz de uma escuridão incrível. Parte do que nos leva a julgar os pecados alheios é a crença falsa de que nunca mais cometeremos pecados graves. Esquecemos que, em determinadas circunstâncias, todos somos capazes de cometer pecados terríveis. A ideia de que nunca entraríamos em tal escuridão vem do orgulho e da falsa crença de que estamos no controle de tudo.

Em The School of Jesus Crucified [“A Escola de Jesus Crucificado”], o Frei Inácio do Lado de Jesus afirma:

Quase sempre acontece de os sentimentos interiores de orgulho precederem a prática de pecados graves. Pedro não tinha consciência da própria fraqueza. Preferiu a si mesmo antes dos outros; confiava em si como se fora incapaz de pecar, gabando-se de que nenhuma tentação o separaria de Jesus. Ele nem sequer deu fé à garantia do Divino Mestre de que o iria negar três vezes. Iludido pela vã confiança em suas próprias forças, esqueceu-se de orar e recorrer a Deus; e Deus, em sua justiça, permitiu-lhe cair no castigo de seu orgulho. Não há nada mais perigoso do que confiar na própria força e em sentimentos de fervor! Estamos cheios de malícia e somos capazes de cometer os crimes mais atrozes, a menos que Deus nos ampare.

É verdade que podemos não ser propensos aos mesmos pecados que os outros, mas ainda somos propensos a pecar. Confiar em nossas próprias forças e esquecer nossas fraquezas sempre leva ao pecado do orgulho, o qual nos abre para uma série de outros pecados. O orgulho leva à cegueira espiritual e nos impede de permanecer dóceis à ação do Espírito Santo em nossas vidas.

Por isso é, de fato, misericordioso e justo que Deus nos permita cair por causa dos nossos pecados, especialmente o orgulho. Encontrar-nos com o rosto em terra nos reorienta de volta à Via Crucis e ao caminho da santidade que todos somos chamados a percorrer. Mesmo que tenhamos certeza do caminho que Deus nos está chamando a trilhar, podemos facilmente cair no orgulho ao decidirmos, por nós mesmos, qual a melhor forma de responder ao chamado de Deus. A maneira como percorremos o caminho é tão essencial quanto o próprio caminho. É por isso que, muitas vezes, pessoas com força de vontade precisam cair de novo e de novo. Cada queda funciona como o refinamento e o distanciamento necessários da nossa própria vontade. Cada queda nos leva a uma maior humildade.

A Quaresma é uma oportunidade para pedir a Deus que nos revele onde estamos deixando de colocar a sua vontade acima da nossa. É o momento de entrar na escuridão que habita em nós e permitir que Cristo faça brilhar sua luz reparadora nos lugares em que nos escondemos por medo e vergonha. As práticas quaresmais da oração, do jejum e da esmola nos livram das distrações e do autoengano que frequentemente usamos para fugir de Deus.

“O Homem das Dores nos braços da Virgem”, de Hans Memling.

De muitas maneiras a Quaresma nos deve “quebrar”. Deve ser difícil. Este tempo é um momento de enfrentarmos a nós mesmos e ao maligno, para que possamos dedicar-nos totalmente ao seguimento de Cristo. Aprendi com o passar dos anos que não é fácil se deixar “quebrar”. Na verdade, é doloroso. Com frequência, evitamos esse processo ou buscamos falsificações que nos preservam de enfrentar as dificuldades necessárias ao crescimento em santidade. Entretanto, se realmente desejamos a santidade e a promessa de vida eterna, não há outro caminho.

Temos de morrer para nós mesmos, e isso significa — por meio da ação do Espírito Santo — conhecer a nós mesmos, especialmente nossas fraquezas e falhas de personalidade. No meu caso, ter obstinação é um dom apenas quando está ordenado a Deus; caso contrário, as pessoas obstinadas tendem a “passar por cima” dos que estão à sua volta. Todos somos obstinados às vezes e vemos o rastro destrutivo que isso deixa para trás. Mesmo que o processo de autoconsciência seja doloroso, sabemos que é realizado com o fogo do amor de Deus. Podemos confiar que, se nos submetermos a Ele, a alegria estará à nossa espera do outro lado da escuridão que, neste momento, precisamos atravessar.

Uma das maneiras que encontrei para ter clareza de visão sobre minha pessoa e a batalha espiritual que se desenrola ao meu redor é pedir a orientação de Nossa Senhora das Dores. Como passamos grande parte da Quaresma voltados para a Paixão de Nosso Senhor, agora é momento de entrar no doloroso e Imaculado Coração de Maria, onde podemos encontrar refúgio e verdadeiro conhecimento sobre nós mesmos e tudo o que Deus nos pede. Ela caminha para a escuridão conosco. Como Mãe dolorosa, está conosco no deserto. Ela é a nossa Mãe humilde, que ajudará a nos afastarmos do orgulho e nos submetermos à vontade de Deus e ao seu desígnio para cada um de nós.

Esta Quaresma é uma oportunidade para nos esvaziarmos de nossa própria obstinação e orgulho, para que possamos ser discípulos fiéis de Jesus Cristo. Não será um processo fácil; mas, com a nossa Mãe dolorosa a nos conduzir à união com Deus através da nossa própria escuridão, encontraremos o caminho da alegria e da paz. Assim sairemos desta Quaresma livres dos pecados, fraquezas e falhas de caráter que nos assolam. Nas próximas semanas, Nossa Senhora das Dores nos pode conduzir no caminho da perfeição através do deserto em que nos achamos.

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Sete Salmos contra os pecados capitais
Oração

Sete Salmos
contra os pecados capitais

Sete Salmos contra os pecados capitais

Você sabe o que são os Salmos penitenciais? Rezando os cânticos de Davi ao longo dos séculos, a Igreja identificou sete em especial para aumentar em nós o arrependimento dos pecados e o espírito de luta contra as más inclinações de nossa carne.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Já faz muito tempo que os Salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 são associados a devoções penitenciais. Ninguém menos que Santo Agostinho os teria recitado em seu leito de morte. Mas eles também são recomendados no combate aos sete pecados capitais — soberba, avareza, ira, luxúria, gula, inveja e preguiça —, sendo cada um desses vícios associado a um salmo em particular. 

As fórmulas de oração abaixo foram retiradas da obra Coeleste Palmetum, do Pe. Wilhelm Nakatenus (1617-1682); sua versão latina encontra-se à disposição no site Preces Latinae; e a tradução portuguesa a seguir é de nossa equipe. 

Por tratar-se de uma devoção privada, essas orações podem ser rezadas da forma como cada fiel achar mais conveniente: quem percebe em si uma inclinação maior a determinado pecado capital, por exemplo, pode rezar apenas o salmo e a oração correspondentes a ele; quem deseja incorporar essa prática às suas orações vocais habituais, pode rezá-la por completo etc.


Antífona. — Não recordeis, Senhor, os nossos delitos, ou os de nossos pais, nem tomeis vingança de nossos pecados.

1) Reza-se o Salmo 6. Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a soberba. — “Nosso Senhor Jesus Cristo humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz. E eu, vilíssimo verme da terra, eu que sou pó e cinza, o maior dos pecadores, que mil vezes mereci o inferno, não me envergonho de ser orgulhoso? Sede-me propício, Senhor: reconheço e detesto minha execrável arrogância. Não me lanceis, eu imploro, com o soberbo Lúcifer e seus asseclas no abismo do inferno. Convertei-vos e livrai minha alma, ajudai-me e salvai-me por vossa misericórdia! Preferi doravante viver rejeitado na casa de Deus a morar nas tendas dos pecadores (cf. Sl 83, 11)”.

2) Reza-se o Salmo 31(32). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a avareza. — “Que há para mim no céu e que desejei de vós sobre a terra, Deus de meu coração e minha herança para sempre? Não se sacia o olho com o que vê, nem basta ao ouvido o que ouve: serei saciado quando aparecer a vossa glória! Ai de mim, que com tanto esforço tenho servido até agora a Mamon! De que me aproveitará lucrar o mundo inteiro, se vier a perder minha alma? Dormiram o seu sono todos os opulentos, e nada encontraram em suas mãos. Confessarei contra mim a minha injustiça ao Senhor, e vós perdoareis, espero, a impiedade de meu pecado. Do pobre doravante terei compaixão, hei de restituir o que devo e me consagrarei mais ferventemente ao vosso serviço. Ajudai-me, Senhor, vós que cumulais de benefícios a minha vida (cf. Sl 102, 5)”.

3) Reza-se o Salmo 37(38). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a ira. — “‘Um homem guarda rancor contra outro homem, e pede a Deus a sua cura! Não tem misericórdia para com o seu semelhante, e roga o perdão dos seus pecados! Quem, então, lhe conseguirá o perdão de seus pecados?’ (Ecle 28, 3ss). Com estas palavras, Senhor, me falais pelo servo, vosso filho, Sirac. E eu, de agora em diante, acaso ousarei alimentar ira ou ódio contra alguém? Perdoai-me, Senhor, perdoai-me minha malícia e obstinação, na qual perseverei até hoje. De coração, desculpo e perdoo agora o que quer que contra mim já tenham feito; e rogo suplicante, Senhor, que em vossa cólera não me repreendais nem em vosso furor me castigueis. Oxalá, como um surdo, doravante não ouça e, como um mudo, não abra mais a boca, quando meus inimigos contra mim se levantarem e me fizerem violência os que perseguem minha alma. Não me abandoneis, Senhor Deus meu, não vos aparteis de mim, ‘porque vós sois a minha esperança’ (Sl 70, 5)”.

4) Reza-se o Salmo 50(51). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a luxúria. — Pai, pequei contra o céu e contra vós, por isso não sou digno de ser chamado vosso filho. Que farei eu, miserável? Não permanecerá o vosso Espírito num homem carnal. Ah! tende piedade de mim, tende piedade. À vossa bondade atribuo que não me conte entre os tantos milhares de réprobos a quem a abominável peste da luxúria ainda hoje precipita no inferno. Irei eu pecar novamente? Hei de conculcar outra vez, por amor a desejos bestiais, o vosso preciosíssimo Sangue, ó Jesus, derramado em purificação de meus crimes? Longe de mim, ó Jesus, longe de mim! Peço-vos, ó Filho da castíssima Virgem Maria: livrai-me do espírito de fornicação. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. De vossa face não me rejeiteis nem me priveis de vosso Santo Espírito”.

5) Reza-se o Salmo 101(102). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a gula. — “Ai de mim, miserável, que vos abandonei a vós, Senhor Deus, fonte de água viva, e abri para mim cisternas de prazeres terrenos, cisternas rachadas que não podem reter água (cf. Jr 2, 13)! Em verdade, esqueci-me de comer meu pão, o pão da vida, que contém em si todo o deleite e a suavidade de todo sabor, e busquei encher o ventre com bolotas de porcos (cf. Lc 15, 16). Ainda tinham comida em suas bocas os filhos de Israel quando a ira de Deus caiu sobre eles: e a mim tantas vezes me perdoastes, que pela intemperança da comida e da bebida desfigurei em mim vossa imagem, ó Deus, fazendo-me semelhante às bestas! Oxalá de agora em diante eu coma cinzas como se fossem pão e misture lágrimas à minha bebida; que o meu alimento seja fazer em tudo a vossa vontade, vós, que nos ‘dais de beber das torrentes de vossas delícias’ (Sl 35, 9)”.

6) Reza-se o Salmo 129(130). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a inveja. — “De tal modo, meu Deus, amastes o mundo, que destes o vosso Filho unigênito, para que todo o que crê em vós não pereça, mas tenha a vida eterna. Vós fazeis o Sol nascer sobre bons e maus e cair a chuva sobre justos e injustos. E eu, enquanto a fortuna toca a outros, rasgo-me de inveja e desejo que tudo suceda segundo a minha vontade, mas entristeço-me com a mínima felicidade do próximo? Oh, malícia desumana! Oh, vírus infernal! Perdoai-me, clementíssimo Pai, que eu até hoje tenha pecado nisso. Benigna é a vossa misericórdia. Fazei, a partir deste momento, que eu vista, como um eleito de Deus, vísceras de misericórdia e benignidade e, acima de tudo, que eu busque ter caridade, que é o vínculo da perfeição (cf. Col 3, 14)”.

7) Reza-se o Salmo 142(143). Ao final, diz-se um Glória, a Antífona do início e, por fim, a seguinte oração contra a acídia. — “Quando, meu Deus, começarei, como é justo, a amar-vos e louvar-vos de todo o meu coração, com toda a minha alma e com todas as minhas forças, a vós que com caridade perpétua me amastes e me desposastes para sempre? Ai! Dormitou minha alma por tédio. Ai de mim, porque tenho sido até agora tão tíbio no vosso serviço, que com justiça posso temer que comeceis a vomitar-me de vossa boca (cf. Ap 3, 16). Mas tende piedade, Senhor: ‘Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de vós. Estendo para vós os braços: minha alma, como terra árida, tem sede de vós. Apressai-vos em me atender, Senhor, pois estou a ponto de desfalecer’; o vosso bom Espírito, porém, me conduzirá pelo caminho reto. ‘Por amor de vosso nome, Senhor, conservai-me a vida’ (Sl 142, 11)”.

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O fantasma do arianismo na Igreja de hoje
Doutrina

O fantasma
do arianismo na Igreja de hoje

O fantasma do arianismo na Igreja de hoje

Como ervas daninhas, as heresias vêm e vão. A questão é que elas voltam de maneiras diferentes. É o caso do arianismo, que hoje chega até nós de modo escondido, como um parasita, e disfarçado, sob a forma de humanismo materialista.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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[Este texto é de autoria do Pe. Dwight Longenecker. Foi vertido à língua portuguesa por nossa equipe.]

As heresias são como ervas daninhas. Elas continuam voltando. A questão é que elas voltam de formas diferentes

No século IV, o arianismo fazia parte do grande debate sobre a divindade de Cristo e, portanto, sobre a definição do dogma da Santíssima Trindade. Essa heresia começou com o ensino de Ário em meados do século III e se espalhou por todo o Império. Missionários da parte oriental foram para o norte, e as tribos góticas foram convertidas ao arianismo.

O arianismo se desenvolveu não apenas como um problema teológico, mas também como um grande cisma. Os arianos tinham suas próprias igrejas, seus próprios bispos e seus próprios poderes temporais — como o rei gótico Teodorico, o Grande, que governava a Itália por volta do ano 500 — para os apoiar. No cerne do arianismo estava uma negação da cristologia nicena. Em resumo, eles acreditavam que Jesus era o “Filho de Deus”, mas não a Segunda Pessoa da santa e indivisa Trindade, que assumiu a carne humana de sua bem-aventurada Mãe. Ele era, em vez disso, um ser criado — um semideus e, portanto, subordinado a Deus Pai.

S. Atanásio, que lutou contra o arianismo, notou que os arianos eram teólogos sutis. Eles usavam uma linguagem ambígua e falavam em termos vagos. Estavam mais interessados no cuidado pastoral do que no dogma. Também eram, em sua maioria, os mais letrados e das classes dominantes. O arianismo era uma forma de cristianismo muito mais confiável. Um Jesus como ser criado, subordinado ao Pai, era mais palatável intelectualmente do que a autêntica doutrina da Encarnação, que levou a dificuldades intelectuais a respeito da Santíssima Trindade.

Hoje, o arianismo assume uma forma diferente e chega até nós sob a forma de humanismo. Por “humanismo” quero dizer aquele sistema de crenças que toma o homem como medida de todas as coisas. Este humanismo é um conglomerado de diferentes crenças modernistas, mas o resumo de tudo é o materialismo: este mundo físico é tudo o que existe, a história humana é tudo o que importa e o avanço da raça humana, neste reino material, é a única coisa pela qual devemos lutar.

O arianismo atual é uma interpretação do cristianismo de acordo com essa filosofia materialista e humanista. Claramente, Jesus Cristo, como o Filho divino de Deus e Segunda Pessoa coeterna da Santíssima Trindade, não se encaixa aqui. Em vez disso, Jesus seria um bom mestre, um rabino sábio, um belo exemplo, um mártir de uma causa nobre. No máximo, ele seria um ser humano “tão realizado e autorrealizado que ‘se tornou divino’”. Em outras palavras, “Jesus seria um ser humano tão completo que nos revela a imagem divina, à qual todos fomos criados — e, portanto, nos mostra como Deus é”. Em certo sentido, essa “divinização” de Jesus teria acontecido como resultado das graças que recebeu de Deus, da vida que levou e dos sofrimentos que suportou.

Esse cristianismo diluído é a forma moderna do arianismo. O contexto cultural da heresia e sua expressão são diferentes, mas a essência dela é a mesma de sempre: “Jesus Cristo é um ser criado. Sua ‘divindade’ é algo que se desenvolveu ou foi adicionado à sua humanidade por Deus”.

A diferença entre Ário e os hereges modernos é que Ário foi realmente explícito em seus ensinamentos. Os hereges modernos não. Eles habitam nossos seminários, nossos mosteiros, nossas casas paroquiais e presbitérios. Eles são do clero modernista que domina as principais denominações protestantes, mas também são numerosos dentro da Igreja Católica. Eles não são uma seita ou denominação separada. Ao contrário, eles infestam a verdadeira Igreja como um parasita horrível.

Muitos deles nem mesmo sabem que são hereges. Eles foram mal catequizados desde o início. Suas crenças sobre Jesus Cristo permaneceram confusas e fora de foco. Eles mantêm suas crenças em uma névoa sentimental, na qual sentem, de modo muito vago, que o que acreditam é “cristão”, mas não querem se aprofundar. Isso acontece porque eles foram ensinados a ver o dogma como um causador de divisão. Eles mantêm suas crenças deliberadamente vagas e focam nas “preocupações pastorais”, para evitar questões difíceis.  O dogma faria parte de uma época anterior na Igreja; hoje, nós amadurecemos e superamos esse tipo de questiúncula. “Deus, afinal, não pode ser colocado em uma caixa. Ele é maior do que tudo isso…”.

Apesar disso, eles se sentem totalmente à vontade recitando o Credo niceno todas as semanas (N.T.: onde ele é recitado todas as semanas, claro; no Brasil, o costume é que se recite o Credo apostólico) e celebrando o Natal do Filho de Deus e o grande Tríduo Pascal — usando todas as palavras do cristianismo niceno tradicional, enquanto reinterpretam essas palavras de uma forma que agrade a Ário. Então, quando falam de Jesus Cristo, o Filho divino de Deus, o que realmente querem dizer é o que eu escrevi acima: “Que, de uma maneira linda, Jesus era um ser humano tão perfeito que nos revela como Deus é”.

A Virgem Maria, então, se torna “uma boa e pura moça judia que lidou com uma gravidez não planejada com grande coragem e fé”. A crucificação se torna “a trágica morte de um jovem e corajoso defensor da paz e da justiça”. A ressurreição significa que, “de alguma forma misteriosa, ao seguir seus ensinamentos, os discípulos de Jesus continuaram a acreditar que Ele estava vivo em seus corações e na história”.

Agora, o que realmente me interessa é que esses arianos modernos (e tenho certeza de que o mesmo se pode dizer da versão ariana do século IV) não são pecadores perversos e imundos. São boas pessoas. São pessoas articuladas e educadas. São pessoas abastadas. São pessoas bem conectadas. São pessoas “cristãs” boas, sólidas e respeitáveis. Caramba, até mesmo os imperadores eram arianos em seus dias! Eles eram as pessoas no topo da hierarquia socioeconômica. Além disso, sua versão ariana da fé parece muito mais razoável, sensível e crível do que a ortodoxia intelectualmente escandalosa de Atanásio, Basílio, Gregório e da Igreja histórica através dos tempos.

Reconheço esses hereges pelo que são: lobos em pele de cordeiro. Eles podem se apresentar como bons cristãos, respeitáveis, devotos e sinceros. Tudo bem. Mas são hereges. São mentirosos, e as pessoas que mais acreditam em suas mentiras são eles mesmos. Se conseguirem o que querem e suas heresias sutis prevalecerem, destruirão a fé.

De minha parte, quero manter a fé histórica de Niceia com Atanásio, Basílio e Gregório e com os santos e mártires. Não me importo nem um pouco se o mundo pensa que essa fé é “antiga” ou “esquisita”, “infelizmente rígida”, “dogmática demais” ou “inacessível aos cristãos modernos”. Os arianos provavelmente usaram todos esses argumentos.

Eu afirmo o Credo niceno: não me importo em dizer “consubstancial com o Pai”, mantenho a clareza e simplicidade dessas palavras e não acho que elas precisem ser “reinterpretadas”.

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Estamos protegidos contra os demônios?
Espiritualidade

Estamos protegidos
contra os demônios?

Estamos protegidos contra os demônios?

“Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta.”

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Trazemos a seguir o relato de mais um caso acompanhado pelo Monsenhor Stephen Rossetti, exorcista da Arquidiocese de Washington, e publicado em seu blog Catholic Exorcism. A tradução para o português foi feita por nossa equipe:

“Júlia” cresceu numa boa família católica. Ela foi para a faculdade e começou a namorar um jovem que estava fortemente envolvido com ocultismo. Ela participava desses rituais e também adotava outros comportamentos pecaminosos.

Pela graça de Deus, na universidade ela teve contato com um grupo de jovens católicos bastante engajados na Igreja, e isso mudou sua vida. Ela terminou com o namorado, começou a assistir à Missa e buscou a Confissão. As coisas estavam melhorando.

Poucos meses depois de sua conversão, ela acordou pela manhã com marcas horríveis nas costas. Parecia que uma besta lhe tinha arranhado. Demônios começaram a atacá-la. À noite, eles a assediavam e abusavam dela. Ela tinha dificuldade para entrar numa igreja ou ir à Missa. Ela sabia que seu passado voltara para atormentá-la.

Duas amigas da universidade queriam ajudar. Elas entraram em seu quarto à noite e puderam ver o que estava acontecendo. Elas decidiram dormir no quarto dela para ajudá-la durante os ataques demoníacos.

Infelizmente, essas jovens, embora bem intencionadas, não estavam espiritualmente preparadas para o que encontraram. Uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual e, pouco depois, deixou a universidade. A outra ficou tomada de raiva, ameaçou cometer suicídio e também deixou a universidade. A família de Júlia recomendou-lhe um exorcista, que iniciou o rito.

Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta. Os pais eram católicos fervorosos.

No capítulo 6 da Carta aos Efésios, S. Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (v. 11). Aquelas duas jovens não estavam preparadas. Os pais de Júlia, sim.

A fé em Deus e em Jesus Cristo é a armadura que nos protege. À medida que a fé se esvai nestes tempos secularizados, temo que nossos lares e famílias estejam desprotegidos. À medida que a fé se esvai em nossa nação, o que será dela?

O que nos deve chamar a atenção nesse relato, em primeiro lugar, é como as pessoas, sobretudo os mais jovens, por falta de discernimento na hora de fazer amizades, têm se aproximado do mal e se tornado suscetíveis a ele. Em outros tempos, as famílias costumavam ter critério para admitir estranhos em seu convívio — e ensinavam seus filhos a fazer o mesmo: “Diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Não se começa uma amizade, muito menos um relacionamento amoroso, com alguém, só porque aparecem afinidades circunstanciais ou gostos marginais em comum. As pessoas são mais, muito mais, do que os jogos com que se divertem, as músicas que escutam ou as séries a que assistem. Ser amigo, no sentido verdadeiro do termo, é compartilhar convicções filosóficas, religiosas e morais fundamentais, que tocam o próprio sentido da existência humana.

O adágio bíblico é conhecido: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). No caso de Júlia, uma má companhia foi o suficiente não só para corrompê-la, mas para deixar marcas ainda mais profundas em sua alma.

Em segundo lugar, é sempre bom lembrar: diferentemente de Deus, os demônios não são seres onipotentes; tudo o que fazem está condicionado à ação permissiva de Deus e à sua bondosa Providência. Tampouco eles têm o poder de “obrigar” as pessoas a fazer o que não querem. Assim, quando lemos, das amigas de Júlia, que uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual, e outra chegou a tentar suicídio, ninguém pense que isso se deva a uma espécie de influência demoníaca irresistível. Mesmo as mais intensas tentações e obsessões demoníacas não são capazes de nos tirar o livre-arbítrio. O próprio Autor Sagrado, quando registra que “Satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes” (Lc 22, 3), não quis dizer com isso que o traidor de Cristo havia se tornado uma “marionete” nas mãos do inimigo. O pecado de Judas foi consciente e deliberado: ele sabia o que estava fazendo. Se o Evangelho se refere aqui a uma possessão literal, pode muito bem ser que ela tenha acontecido até como consequência da gravidade do pecado cometido por Judas. 

Por último, a lição principal de toda a história: a importância da bênção da Igreja, dos sacramentais, das imagens sagradas e da oração para proteger-nos da ação do inimigo. Nunca é demais insistir nesta passagem, que a liturgia da Igreja põe toda terça-feira nos lábios de seus sacerdotes, nas Completas: “Sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8). Se dormimos, o inimigo de nossas almas não dorme. Se não nos protegemos, ele investe contra nós e sai bem sucedido. A batalha espiritual já está acontecendo ao nosso redor. Fingir que ela não é real, ou ignorá-la, só será pior para nós. Precisamos nos armar, com tudo o que Deus nos concedeu através de sua Igreja, para sairmos vitoriosos nesse combate. 

Isso significa que devemos, sim, munir-nos de água benta e de outros materiais abençoados — como imagens, velas e terços —, sem nunca esquecer, no entanto, que a principal proteção contra o mal nós a levamos na alma, quando cremos em Deus e procuramos rezar, receber os sacramentos da Igreja e levar uma vida conforme os Mandamentos. Uma coisa não exclui, nem diminui a importância da outra, pois somos formados de corpo e alma

Por isso, vale a pena perguntar: a sua residência já foi abençoada por um padre? Você se preocupa em pedir a um sacerdote que abençoe as imagens ou velas que compra para rezar? Tem sempre consigo, em casa, um pouco de água benta? 

Caso tenha respondido “não” a alguma das perguntas acima, comece hoje mesmo a cultivar o hábito contrário e deixe-se cercar pela bênção de Cristo, que Ele quer derramar em nós não através de curandeiros espíritas e benzedeiros sem credenciais — pois isso é superstição [1] —, mas através dos sacerdotes da Igreja, cujo ministério Ele mesmo instituiu para levar ao mundo a sua salvação.

Notas

  1. Para consultar qual seja a posição da Igreja perante o fenômeno do curandeirismo, cf. Fr. Boaventura Kloppenburg, Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, pp. 34-36.

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