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Por que gostamos tanto de histórias de conversão?
Testemunhos

Por que gostamos tanto
de histórias de conversão?

Por que gostamos tanto de histórias de conversão?

Desde São Paulo e Santo Agostinho até os dias atuais, testemunhos de conversão sempre exerceram grande fascínio. Mas por que gostamos tanto dessas histórias? E com que espírito elas devem ser acolhidas, especialmente agora, com a internet?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Março de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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A história de cada ser humano pode ser resumida em dois simples atos: o de Deus, que o busca e chama, e o seu, de resposta a esse chamado. 

O Catecismo da Igreja Católica começa falando justamente disso: “Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada” (§1). Por isso, “o desejo de Deus está inscrito no coração do homem” (§27) e desde sempre ele o procura. De sua parte, Deus também vai ao encontro do homem que criou — é a Revelação, que vai acontecendo progressivamente ao longo do que se convencionou chamar, e com muito acerto, “história da salvação”: pois se há uma coisa que Deus faz, em todo o relato bíblico, é salvar o seu povo.

Desde o princípio, porém, Ele salva não só coletividades, mas pessoas bem concretas: Noé e Abraão, Isaac e Jacó, Moisés e Aarão, o Antigo Testamento está repleto de personagens históricas abençoadas diretamente por Deus.

É assim também agora, no tempo da Igreja. Jesus morreu por todos os homens, mas o cálice da salvação precisa ser bebido por cada um, como um remédio que só salva se for aplicado ao doente. É por isso que nós, católicos, vibramos não só com o relato da Paixão de Cristo, mas também com a aplicação de seus frutos na vida dos santos. Se interessa conhecer o modo como Deus nos salvou a todos, não é menos interessante saber como essa salvação acontece na biografia específica de cada um. 

Certos relatos de conversão, no entanto, chamam particularmente a atenção, seja pela fama e estatura da pessoa convertida, seja pelas coisas de que ela teve de abrir mão para dar o seu “sim” a Deus. 

Celebérrima nesse sentido é a conversão de São Paulo, que mereceu ser eternizada no próprio Cânon do Novo Testamento, nos Atos dos Apóstolos (c. 9). Nesse mesmo livro, estão registradas as inúmeras viagens que ele fez para pregar o Evangelho. Não fossem sua determinação e coragem verdadeiramente extraordinárias, Cristo demoraria muito mais para ser conhecido entre os povos — num tempo em que não havia nem Telegram nem telegrama.

Alguns anos mais tarde, Santo Agostinho deixaria seu testemunho gravado para sempre nas Confissões e, contemporânea a ele, Santa Maria Egipcíaca deixaria sua vida de pecados para se isolar até o fim da vida no deserto.

Como esses homens e mulheres, muitos outros houve, ao longo da história, que deixaram tudo o que tinham — cargos e riquezas, misérias e pecados — para seguir Nosso Senhor e entrar na sua Igreja. Também nossa época, marcada por um notável desenvolvimento das artes, das ciências, da tecnologia e dos meios de comunicação, tem os seus “convertidos famosos”. Só do século XX, podemos citar nomes como Edith Stein, Charles de Foucauld, Gertrud von le Fort, Eve Lavallière, Paul Claudel, G. K. Chesterton, Thomas Merton e Gabriel Marcel.

Os testemunhos desses e de muitos outros contemporâneos mostram como o apelo de Deus aos corações humanos é realmente universal, não conhecendo fronteiras de nenhum tipo. A única coisa que pode barrar a ação da graça divina no mundo é a nossa própria vontade, obstinada no mal e na incredulidade.

Duas possíveis conversões em nossos dias

Recentemente, notícias publicadas em sites católicos norte-americanos acenderam o alerta para a provável conversão de duas pessoas públicas com forte impacto sobre o mundo intelectual: trata-se do jornalista Milo Yiannopoulos e do professor de psicologia Jordan Peterson.

O professor Jordan Peterson.

O primeiro, um polemista conservador assumidamente homossexual, concedeu uma entrevista na qual disse ter abandonado a prática e declarou estar se consagrando a São José. Milo Yiannopoulos teve uma adolescência bastante conturbada, marcada por abusos sexuais (envolvendo inclusive um sacerdote católico), e nos últimos anos chegou a viver com um parceiro homossexual. Mesmo assim, nunca procurou “justificar” moralmente a vida que levava. No início de 2019, em uma conversa com Michael Voris, do site Church Militant, Milo chegou a ser desafiado a viver a castidade. Nos últimos meses, ele parece ter aceitado a proposta. 

O segundo, também conservador e autor do best-seller12 Regras para a Vida”, confessou num podcast estar muito próximo da fé em Cristo. Jordan Peterson já foi questionado inúmeras vezes sobre suas crenças, mas quase sempre respondeu evasivamente. Por mais de uma vez declarou: “Eu ajo como se Deus existisse, mas me aterroriza [pensar] que Ele de fato exista”. Depois de um período bem conturbado de sua vida, no entanto, em que enfrentou complicações médicas bastante sérias e chegou a entrar em coma, talvez algo tenha mudado em seu interior. Eis o que ele declarou recentemente (neste vídeo, a partir dos 40min35s), em tom emocionado (tradução e grifos nossos):

C. S. Lewis destacava isto, que a diferença entre Cristo e os deuses da mitologia estava em que há uma representação, uma representação histórica de Cristo também… Você pode debater se isso é ou não genuíno… Há ainda uma narrativa histórica, uma pessoa real que de fato viveu… O problema é que eu provavelmente acredito nisto, mas não sei, eu me impressiono com a minha própria crença, e eu não a entendo… Eu acredito que isso é inegável, o mundo objetivo e o mundo narrativo [se] tocam, e eu vi isso [acontecer] muitas vezes… E o exemplo definitivo disso deveria ser Cristo, e isso me parece estranhamente plausível. Eu ainda não sei o que fazer a respeito disso, em parte por se tratar de uma realidade assustadora demais na qual acreditar completamente; eu não sei o que acontece a quem acredita. 

Como se pode ver, as coisas ainda parecem um pouco confusas para o escritor canadense, mas a sua declaração mostra desde já uma abertura muito significativa à transcendência.

De nossa parte, o que nos cabe, em primeiríssimo lugar, é rezar por esses dois pensadores, para que continuem caminhando em direção a Deus. Ainda não é o momento de nos perguntarmos o que a conversão, seja de Milo seja de Peterson, tem a oferecer à Igreja e ao mundo. Como escreveu Kennedy Hall comentando a provável conversão de Jordan Peterson

Quando homens como Jordan Peterson parecem estar prestes a se converter a Cristo, de imediato nós pensamos no que eles podem oferecer à Igreja em seus esforços para converter o mundo. Isso é compreensível, mas talvez nós devamos olhar para isso de outra forma; não pensemos no que Peterson pode oferecer à Igreja, mas, antes, no que a Igreja poderia oferecer a ele — a salvação de sua alma. 

Uma cautela em tempos de internet

Por fim, mas não menos importante: lembremo-nos que todo cuidado é pouco com os anúncios de “conversões” na era da internet

O jornalista Milo Yiannopoulos.

Primeiro porque, diante da crise de ortodoxia que existe na Igreja Católica, é infelizmente muito comum o fenômeno das falsas conversões. A decisão de Milo, por exemplo, de levar uma vida casta, por quantos movimentos e organizações ditas “católicos” não seria vista como desnecessária! Quantos prelados não se apressariam em desencorajá-lo, chegando mesmo a procurar “elementos positivos” no estilo de vida homossexual! Infelizmente, para essas pessoas, basta se converter a qualquer coisa; mas nós sabemos: a única coisa que pode realmente salvar o homem é a conversão ao Deus verdadeiro, o abandono do mundo, a fidelidade aos Mandamentos.

Em segundo lugar, não só agora como sempre, a conversão não é obra de um só dia, mas na internet tudo é efêmero, instantâneo, passageiro. A própria exposição externa a que muitas figuras públicas se submetem é um fator negativo para o processo interior que precisa acontecer em toda conversão autêntica. 

Isso não significa pôr em dúvida a sinceridade da busca de Deus de ninguém. É, antes, um lembrete, tanto aos que se convertem quanto aos que ouvem falar de conversões, de que a graça de Deus habita em frágeis vasos de barro (cf. 2Cor 4, 7). Assim como quem ontem delinquia hoje pode se redimir, quem hoje se apresenta aos outros como modelo pode muito bem cair e escandalizar a muitos amanhã. Nenhuma conversão, por estupenda que seja, é garantia de segurança e impecabilidade. 

Por isso é tão importante fazer, no início da própria conversão, o mesmo retiro que fez São Paulo: antes de tornar-se “Apóstolo dos gentios”, ele foi para o deserto por três anos e, depois, para sua cidade natal, onde permaneceu dez anos escondido, em oração e recolhimento. Ou seja: o maior dos Apóstolos, mesmo depois de toda a sabedoria humana que havia acumulado em sua vida, mesmo depois de haver recebido o Batismo, julgou necessário ocultar-se aos olhos do mundo por treze anos antes de sair pregando o Evangelho! Por que nós, então, precisamos alardear aos quatro cantos do mundo que mudamos, que agora nos convertemos, que agora “fazemos e acontecemos”?

Sim, testemunhos de conversão são edificantes e é muito bom ouvi-los. Mas, enquanto houver mundo, estamos em guerra, sobretudo contra nossa carne e nossas vaidades. Tornemo-nos primeiro discípulos, para depois sermos missionários. Falemos primeiro com Cristo, antes de falarmos dele. E rezemos para que no caminho em direção a Deus não caiam os que estão de pé, e os que estão caídos se levantem — de uma vez e para sempre.

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Oração de Manassés: a súplica de um rei arrependido
Oração

Oração de Manassés:
a súplica de um rei arrependido

Oração de Manassés: a súplica de um rei arrependido

Este rei de Judá começou o seu governo praticando graves pecados e levando todo o povo de Deus à idolatria, à magia e à adivinhação. Atacado e levado por inimigos ao exílio, no entanto, Manassés se arrependeu e dirigiu a Deus a seguinte oração.

Preces LatinaeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Março de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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A Oração de Manassés é um texto apócrifo do Antigo Testamento que aparece, todavia, em edições da Septuaginta e em apêndices da Vulgata. É atribuída ao rei Manassés, de Judá, cujo reinado durou de 698 a 643 a.C. e cuja história está registrada em 2Rs 21, 1-18 e em 2Cr 33, 1-20. 

Depois de muitos anos cometendo pecados graves e levando todo o povo de Judá à idolatria, “à astrologia, à adivinhação e à magia”, Manassés foi atacado pelos assírios e exilado na Babilônia, e foi nessa situação de angústia que ele supostamente dirigiu a Deus a seguinte oração, de forte caráter penitencial

A Escritura relata que “o Senhor ouviu sua oração, reconduzindo-o a Jerusalém sobre seu trono”. A partir de então, ele “fez desaparecer do Templo do Senhor os deuses falsos… e atirou-os para fora da cidade”; depois, ainda “reconstruiu o altar do Senhor, e ofereceu sacrifícios de ação de graças e louvor”. 

A vida de Manassés é, assim, a ilustração perfeita da antífona que os católicos rezam ao longo de toda a Quaresma: “Vivo ego, dicit Dominus, nolo mortem peccatoris, sed ut magis convertatur et vivatVivo, diz o Senhor, não quero a morte do pecador, mas que se converta e viva”.

A versão original desta prece encontra-se no site Preces Latinae; a edição crítica Weber-Gryson omite vários trechos nela presentes, mas estes foram mantidos na tradução abaixo, por acentuarem a tônica penitencial da oração. O texto foi vertido à língua portuguesa por nossa equipe.


Senhor Deus onipotente de nossos pais Abraão, Isaac e Jacó e de toda a sua justa descendência; Senhor, que fizestes o céu e a terra com todo o seu ornato, que fendestes o mar com a palavra de vossa ordem, que fechastes o abismo e o assinalastes com o vosso terrível e louvável nome, a quem temem todas as coisas e tremem ante a face de vosso poder. Porque é insuportável a magnificência de vossa glória e insustentável a ira de vossa ameaça sobre os pecadores, imensa porém e investigável a misericórdia de vossa promessa, porque vós sois o Senhor altíssimo sobre toda a terra, benigno, lento para a cólera, cheio de clemência e paciente com a malícia dos homens.

Vós, porém, Senhor, segundo a vossa bondade prometestes a penitência e a remissão aos que pecaram contra vós; e, da multidão de vossas misericórdias, decretastes [dar] penitência aos pecadores, para a salvação.

E vós, portanto, Senhor, Deus dos justos, não impusestes penitência aos justos Abraão, Isaac e Jacó, a estes que contra vós não pecaram, mas impusestes a penitência por causa de mim, pecador.

Porque pequei acima do número das areias do mar, multiplicaram-se minhas iniquidades, Senhor, multiplicaram-se minhas iniquidades. E não sou digno de voltar-me e olhar para a altura do céu, pela multidão de minhas iniquidades.

Encurvei-me muito sob um vínculo de ferro, de modo que não posso elevar minha cabeça nem me é possível respirar, porque provoquei a vossa cólera e pratiquei o mal diante de vós, tencionando abominações e multiplicando ofensas.

E agora dobro os joelhos de meu coração rogando à vossa bondade, Senhor. Pequei, Senhor, pequei, e reconheço a minha iniquidade. Por isso vos peço suplicando, Senhor: perdoai-me, perdoai-me, não me façais perecer com minhas iniquidades nem, em vossa ira, me reserveis males para a eternidade nem me condeneis às entranhas ínfimas da terra. Porque vós sois, ó Deus, o Deus dos penitentes, e em mim mostrareis toda a vossa bondade. Porque me salvareis a mim, indigno, segundo vossa grande misericórdia. E vos louvarei sempre, todos os dias da minha vida. Porque vos louva todo o exército dos céus, e vossa é a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

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“Meninx”? A resposta de Madre Angélica
Sociedade

“Meninx”?
A resposta de Madre Angélica

“Meninx”? A resposta de Madre Angélica

E se o Catecismo da Igreja Católica fosse escrito todo na chamada “linguagem inclusiva”? Em 1992, essa proposta quase se tornou realidade nos Estados Unidos, não fosse a luta de Madre Angélica para defender a fé e a Tradição da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Março de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Querem ouvir uma história esquisita? 

Outro dia, um jornal narrava a situação de uma avó que perguntou ao neto, cujo aniversário se aproximava, quantos amigos ele convidaria para sua festa. Notando que o aniversariante só havia mencionado garotos, ela questionou se não viria nenhuma menina também. “Sim. Claro. É que você disse amigos, e não ‘amigues’”, corrigiu o pequeno militante, para perplexidade da anciã [1]. Segundo o jornal, episódios como esse têm se repetido cada vez mais entre a classe média progressista de alguns países. Uma coisa é certa: se ninguém tomar providências, dentro de poucos anos a linguagem humana que conhecemos cederá lugar a um delírio linguístico tão revolucionário quanto ridículo.

O potencial destrutivo desse empreendimento maluco salta aos olhos. Agora, imaginem que a Bíblia ou o Catecismo adotasse essa mesma linguagem em sua redação. Com que espanto, por exemplo, as senhoras do Apostolado da Oração não reagiriam a um texto que dissesse “menine”, e não “Menino Jesus”? Que perplexidade não tomaria o coração dos fiéis ao ouvirem de seus catequistas que Nosso Senhor escolheu “discípulxs”, e não “discípulos”?

Apesar de surreal, esse pesadelo quase aconteceu nos Estados Unidos, décadas atrás, não fosse a intervenção sábia de uma valente vovozinha: Madre Angélica, a fundadora da TV católica EWTN. A história é narrada em sua biografia pelo jornalista Raymond Arroyo (os grifos são nossos) [2]:

Foi uma intervenção do Cardeal Bernard Law, arcebispo de Boston, em um Sínodo Extraordinário dos Bispos, em 1985, que trouxe a lume o primeiro Catecismo universal da Igreja Católica em mais de 400 anos. Law, expressando um desejo episcopal amplamente difundido, pediu por um único volume que codificasse exatamente o que a Igreja acreditava e ensinava no período turbulento pós-Vaticano II. Abraçando a ideia, o Papa João Paulo II aprovou um comitê de redação em 1986.

A edição francesa original desse Catecismo, promulgado pelo Papa em outubro de 1992, vendeu mais de um milhão de cópias. A demanda do público internacional se intensificou, exigindo o lançamento das edições espanholas, asiáticas, italianas e africanas. Mas a edição em inglês, mergulhada num pântano linguístico e teológico, não estava disponível em lugar nenhum. Madre Angélica foi particularmente responsável pelo atraso.

Devido ao seu papel seminal na elaboração do Catecismo, era natural que o Cardeal Law supervisionasse a tradução da edição em inglês. Sob sua liderança, os tradutores adotaram uma abordagem inclusiva, retirando sistematicamente termos específicos de sexo e substituindo-os por alternativas neutras. Referências a “homem”, por exemplo, foram traduzidas por “humanidade”; “homens e mulheres” transformaram-se em “pessoas e família”. Em vez das palavras de Jesus: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes pequeninos que são meus irmãos”, lia-se na nova tradução: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes pequeninos que são membros de minha família”.

Em uma carta de dezembro de 1992, acompanhando o esboço final da edição em inglês, o Cardeal Law descreveu a tradução aos seus irmãos bispos como uma “abordagem moderada” em direção à linguagem inclusiva. Os bispos americanos aprovaram o esboço e o enviaram para a aprovação final de Roma. Uma tempestade de críticas surgiu.

“Eles não estão mudando a linguagem por razões orgânicas, mas por causa da pressão de alguns grupos que se dizem ‘ofendidos’”, declarou o Padre Joseph Fessio, editor da tradicional editora Ignatius Press. Fessio acreditava que a tradução se rendera aos progressistas e às feministas, que desejavam um ajuste do ensinamento católico às próprias agendas. “Há outros católicos que não querem a mudança, e eles foram ignorados”, disse Fessio.

No informativo de sua arquidiocese, o Cardeal Law defendeu a tradução por motivos culturais. “Houve um tempo em que a palavra ‘homem’ era geralmente compreendida… como todos os seres humanos”, ele escreveu. “Este nem sempre é o caso hoje, dada a mudança cultural em relação à inclusão”.

As religiosas de Madre Angélica haviam requisitado 150 catecismos em inglês para vendê-los em suas lojas quando a notícia da controvérsia chegou ao claustro. A espirituosa irmã Agnes, uma religiosa agraciada com beleza e coragem, ligou ao vendedor para expressar qual edição elas esperavam receber. Quando soube que eles haviam reservado cópias do catecismo da “tradução na linguagem inclusiva”, Agnes cancelou o pedido, presumindo que Madre Angélica faria o mesmo. Tivesse acontecido com qualquer outro grupo de irmãs, o incidente passaria despercebido, mas um claustro com um canal direto a milhões de católicos merecia um escrutínio minucioso.

O telefone do mosteiro tocou em 8 de janeiro de 1993. Era o Cardeal Law, ligando aparentemente para Madre Angélica a fim de discutir o cancelamento da compra dos livros e entregar-lhe uma mensagem do núncio papal. Rouca por um grave ataque de asma, Madre Angélica recusou a ligação. De acordo com a história do OLAM (N.T.: Our Lady of the Angels Monastery), o próprio núncio ligou para a EWTN, mas foi igualmente informado de que Madre Angélica não podia falar.

Mais tarde, o Bispo Raymond Boland, de Birmingham, telefonou para Madre Angélica a fim de lhe assegurar que a tradução do catecismo em linguagem inclusiva seria aprovada por Roma e que uma oposição pública seria vista como hostilidade à vontade da Igreja. Madre Angélica respondeu ao telefonema. De forma direta, ela disse ao bispo que não apreciava a linguagem inclusiva e lhe fez uma pergunta retórica: “Jesus foi… concebido pelo Espírito Santo e nasceu como um humano ou um indivíduo? Você não pergunta a uma mãe se o seu filho é um humano, você pergunta se é um menino ou uma menina”. Embora ela não tivesse sido diretamente responsável pelo cancelamento da compra dos livros, o que provocara o telefonema, a Madre estava muito feliz por expressar a própria opinião. A batalha havia começado.

Depois de revisar o esboço em inglês do Catecismo, o Vaticano convocou o Cardeal Law a Roma em fevereiro. No mesmo período, Madre Angélica tinha seus próprios assuntos a tratar na Cidade Eterna. Conforme se aproximava da Congregação para a Doutrina da Fé, viu o Cardeal Law sair do palácio, com um sorriso estampado em seu rosto carnudo.

“Oh! Olá, Madre. Eu ouvi que a senhora tem um encontro com o Cardeal Ratzinger. Agora, a senhora defenda aquela linguagem inclusiva. Ela é muito importante na América”, Angélica se lembra de o Cardeal lhe dizer. “E eu pensei: Ah! você deve saber por que eu estou aqui”.

Madre Angélica encontrou-se com o Cardeal Joseph Ratzinger, a autoridade doutrinal do Vaticano e, em última análise, o homem responsável pelo Catecismo. Em seu escritório, eles conversaram intensamente. Sentando-se, um pouco desconfortável, em uma cadeira estofada de veludo vermelho e dourado, que facilmente poderia ter-se passado por trono para a coroação de Napoleão, Angélica explicou o alcance da operação de seu canal 24h e de sua rede de ondas curtas. “Eu quero levar a Igreja por todo o mundo, e nós podemos fazer isso. Mas não podemos se for na linguagem inclusiva”, disse a Madre ao Cardeal. “Ela é terrível; muda a doutrina e muda tudo”. Depois de trocarem cordialidades, a Madre agradeceu ao Cardeal e partiu.

No fim das contas, o Vaticano rejeitou o esboço de “gênero neutro”, suspendendo a publicação do Catecismo em inglês por quase um ano e meio. Nesse ínterim, a Santa Sé exigiu sua própria tradução, fiel ao original francês, repleta de pronomes masculinos e terminologia específica de sexo…

Para além de todas as críticas e ressalvas, a intervenção de Madre Angélica nessa história foi apenas a reação normal de quem percebe que “o rei está nu”. 

Madre Angélica e o Papa S. João Paulo II.

O problema da chamada “linguagem inclusiva” é que ela é tudo, menos inclusiva. Explicamos: a língua é a identidade de um povo, o meio pelo qual uma tribo, nação ou civilização, seja antiga ou moderna, desenvolve sua cultura, arte, moral, virtudes e religiosidade. Como explica o historiador Christopher Dawson, “é somente por intermédio da língua que o homem pode transmitir a memória da experiência passada para as gerações futuras e, desse modo, gerar acúmulo de conhecimento que é a condição da cultura” [3]. Mais ainda: “Sem o idioma”, diz Dawson, “teria sido impossível ao homem libertar-se do domínio dos instintos que determinam a vida imutável da existência não humana” [4].

É claro que, aqui e ali, o idioma pode, e às vezes deve, sofrer alterações e evoluir, mas desde que essa evolução seja orgânica e não subverta sua ordem intrínseca. De outro modo, o nexo entre uma geração e outra fica comprometido como uma verdadeira Torre de Babel. O episódio narrado por aquele jornal citado no começo deste texto não ilustra apenas uma situação corriqueira de uma determinada família; ele ilustra a soberba de uma geração que, em vez de se sentar para ouvir os “causos” e aprender com a sabedoria dos antigos, prefere jogar todo o passado fora em nome de um arranjo social fictício, que vê luta de classes em cada esquina. A “linguagem inclusiva” está para o idioma como o movimento Black Lives Matter está para as estátuas de Winston Churchill ou Cristóvão Colombo. A questão é muito mais destruir do que incluir.

Que o Cardeal Bernard Law, cujo nome esteve envolvido mais tarde no escândalo de pedofilia que deu argumento ao filme Spotlight, não pudesse avaliar a consequência da sua famigerada tradução, é coisa sobre a qual não discutimos, pois não nos cabe julgar intenções. Mas, como percebeu Madre Angélica, um idioma não pode ser uma massinha de modelar para ser adaptado ao sabor de cada indivíduo. Se toda uma gramática é reestruturada simplesmente para agradar a determinado grupo, outro será desagradado. Como consequência, os conceitos vão perdendo sentido e a alfabetização se converte numa tarefa quase impossível, assim como a evangelização. 

Aliás, é justamente por isso que os grandes ditadores sempre investiram em propaganda e narrativas para subverter a ordem e dominar o povo. George Orwell representou muito bem essa “novilíngua” em sua obra 1984, cujo legado, como o de outros clássicos literários, agora está ameaçado precisamente por ela: a linguagem inclusiva.

Também a teologia corre um sério risco, caso queira ceder a grupos de pressão para se mostrar, digamos, mais “tolerante”: o de apresentar um Jesus tão humano, tão humano, que deixe até de ser homem.

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Anticoncepcionais não! As mulheres merecem mais!
Sociedade

Anticoncepcionais não!
As mulheres merecem mais!

Anticoncepcionais não! As mulheres merecem mais!

Mulher, da próxima vez que um médico tentar “tratar” uma doença sua com a pílula anticoncepcional, diga “não”. Isso não é tratar o problema, mas ignorá-lo. Exija mais dos médicos, por suas irmãs em Cristo, por suas filhas e por você mesma.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Março de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Um dia, a história mostrará que uma das maiores injustiças contra as mulheres de nossa época é o controle de natalidade. Há inúmeras razões que demonstram isso, mas existe uma dimensão que muitas vezes é negligenciada. O controle de natalidade deu origem, na área médica, a um foco absolutamente inadequado na saúde das mulheres. Se você conversar com qualquer mulher que tenha de lidar com problemas hormonais debilitantes que exacerbam outros problemas de saúde, descobrirá inúmeras histórias de mulheres que foram informadas de que a pílula era a única resposta

Eu sou uma delas.

Já escrevi noutra ocasião sobre os meus quatro abortos espontâneos e as baixas taxas hormonais que têm sido um problema crônico em minha vida. As Tecnologias Procriadoras Naturais (NaPro, na sigla em inglês) me ajudaram durante um tempo, mas, no final das contas, desenvolvi graves efeitos colaterais por causa de meus tratamentos hormonais. Por causa disso, tive de interromper as doses que estavam me ajudando a tratar a baixa taxa de estrogênio e progesterona. A última solução apresentada por meu médico foi iniciar o uso da pílula.

Por razões médicas permitidas pela Igreja, cogitei rapidamente em aceitá-la, mas, depois de pesquisar, descobri que tenho uma mutação genética que me torna muito mais suscetível a ter coágulos na corrente sanguínea, potencialmente fatais, caso tomasse anticoncepcionais. Decidi suportar os difíceis sintomas e uni-los à Cruz de Cristo, para a sua maior glória e em favor das pessoas pelas quais Ele pediu que eu sofresse de modo especial. Isso não significa que esse caminho seja fácil, pois a cruz nunca é fácil, mas é o caminho para o amor e a alegria.

À medida que fui envelhecendo, meus problemas hormonais pioraram e agravaram outros problemas de saúde crônicos que surgiram depois que tirei minha vesícula biliar. Atualmente, não posso ingerir a maior parte dos alimentos, particularmente quando minha taxa hormonal cai e a inflamação aumenta subitamente, fazendo-me ficar doente por uma ou duas semanas todo mês. 

Não digo isso para murmurar do meu drama. O sofrimento é redentor, além de ser um meio de santificação que deve ser aceito, apesar dos momentos de aflição. Digo isso para mostrar que a comunidade médica desamparou pessoas como eu.

A indústria médica não tem interesse em entender como o corpo feminino realmente funciona. Só está interessada na indústria multibilionária que procura suprimir o funcionamento natural do corpo feminino. Infelizmente, muitos católicos aceitam isso, na medida em que continuam a impor barreiras artificiais ao ato conjugal por meio da contracepção, rejeitando assim o chamado de Deus à doação plena ao cônjuge num ato de amor desprendido.

Parte disso é resultado da ignorância. Muitos sacerdotes, no caos que surgiu após o Concílio Vaticano II, fizeram-se de cegos ao uso da contracepção ou o apoiaram, apesar de a Igreja ensinar claramente que o uso da contracepção é um pecado grave — a menos que ela seja usada por razões médicas que não tenham nenhuma relação com o impedimento intencional de uma gestação. A profética encíclica Humanae Vitae, de S. Paulo VI, é claríssima em relação à doutrina da Igreja. As gerações passadas foram enganadas com a mentira de que essa é uma área que deveria ser ignorada pelos católicos. Essa mentira chegou até a minha geração e agora está sendo passada à geração da minha filha por católicos que continuam a ignorar essa doutrina. 

A maioria dos católicos deve ao menos ter ouvido falar que a Igreja proíbe o uso da contracepção, pois hoje já existe suficiente doutrina autêntica sobre o tema. Isso quer dizer que muitos católicos escolheram o mundo e desprezaram Cristo nessa área de suas vidas, algo que fica claro na cultura ocidental e nas tecnologias médicas completamente inadequadas disponíveis às mulheres. Isso quer dizer que muitos católicos não estão apenas se afastando de Deus, mas também estão apoiando deliberadamente uma grave injustiça contra as mulheres.

Enquanto os católicos continuarem usando métodos de controle de natalidade e ignorando a doutrina de Cristo, mulheres como eu ficarão à mercê de nossos problemas médicos, sem nenhuma perspectiva de solução. Enquanto continuarmos acreditando fielmente nas mentiras de nossa cultura, não conseguiremos realizar nenhuma mudança. Se acreditamos que oprimir o corpo feminino é a melhor maneira de cuidar dele, então não poderemos reclamar quando médicos não conseguirem tratar enfermidades ocultas. No final das contas, a culpa recairá sobre nós. Sofremos de feridas autoinfligidas, pois nos recusamos a exigir algo melhor.  

Uma falsa panaceia 

Isto pode soar agressivo (apesar de não ser minha intenção), mas é a verdade. Ao longo dos últimos dez anos, todos os médicos com que me consultei quiseram me empurrar a pílula anticoncepcional como se fosse uma pílula mágica que solucionaria todos os meus problemas (da enxaqueca à gastrite, da dor crônica à fadiga). Isso é muito angustiante, porque esses médicos não estão muito preocupados com os riscos que a pílula oferece às mulheres, nem com as implicações morais do que a contracepção fez para dizimar nossa cultura nos últimos cinquenta anos.

Também não estão interessados em compreender o funcionamento do corpo feminino. Há uma razão pela qual minha baixa taxa hormonal provoca muitas inflamações em meu corpo em momentos específicos do mês, mas ninguém se preocupa em descobrir o porquê. A pílula pode simplesmente interromper ou limitar meu ciclo e voilà! problema “resolvido”. Porém, isso não é solução nem tratamento; é como cobrir um corte profundo com band-aid.

Os hormônios progesterona e estrogênio causam problemas generalizados no corpo feminino. Os médicos sabem que tais hormônios aumentam a inflamação quando há deficiência deles, mas há poucas pesquisas sobre o problema, que ainda está presente e cuja causa é completamente ignorada. Enquanto isso, eles põem em risco alguém que passa por uma situação como a minha.

As mulheres que também já estiveram no abismo obscuro da depressão pós-parto sabem o que significa o abandono completo da comunidade médica. A depressão pós-parto está relacionada aos hormônios, mas os médicos só receitam drogas psicotrópicas com vários efeitos colaterais.

Há nove anos, quando a depressão pós-parto e a ansiedade me atingiram com intensidade dez semanas após o nascimento de minha filha, a enfermeira clínica com quem me consultei me disse: “Eu lamento muito. Sei que ninguém fará nada por você.” Fiquei satisfeita com a honestidade dela, mas, numa época em que Deus nos deu acesso a tratamentos para tantas doenças, isso é algo completamente inaceitável. 

Felizmente, os tratamentos hormonais que utilizam Tecnologias Procriadoras Naturais me ajudaram na depressão pós-parto, mas essa área não possui financiamento suficiente para que tenha amplo impacto em nossa cultura. Portanto, os próprios tratamentos são intrinsecamente limitados. Descobri essa realidade há três anos, quando tive de interromper os tratamentos. Ainda há muito a ser feito na área da saúde da mulher, inclusive nas áreas em que há progressos em sintonia com a doutrina da Igreja.

As mulheres merecem mais

Sei que somos chamadas a recorrer ao Cristo crucificado e a buscar a santificação por meio do sofrimento redentor. Também chegou o momento de os católicos começarem a exigir mais da comunidade médica. É uma grande injustiça o fato de que nós, mulheres, fomos enganadas pela mentira de que devemos oprimir nosso corpo para sermos verdadeiras mulheres ou tratarmos doenças ocultas. Por que não exigimos mais da comunidade médica? 

Numa época de fabricantes multimilionários de medicamentos que mudam e salvam vidas, por que a saúde das mulheres fica tão aquém disso? A resposta é: controle de natalidade. Por que buscar respostas, quando médicos podem dar às mulheres uma pílula que age como uma panaceia, e não como um tratamento real? 

Há milhões de mulheres católicas neste país. Temos de parar de acreditar nessas mentiras e recorrer plenamente a Cristo, em primeiro lugar, pois Ele é o único que pode dar as graças necessárias que levarão as mulheres a abandonar o controle de natalidade e a viver verdadeiramente para Ele, e não para o mundo.

O próximo passo é recordar que podemos mudar as coisas se trabalharmos juntos. Muitas vezes, esquecemo-nos de que o número nos dá força, mas não poderemos realizar nenhuma mudança duradoura enquanto aceitarmos a mentira. Da próxima vez que seu médico tentar “tratar” sua doença dizendo simplesmente que a pílula ajudará, não aceite a recomendação. Isso não é tratar o problema, mas ignorá-lo. Exija mais dos médicos, por suas irmãs em Cristo, por suas filhas e por você mesma. As mulheres merecem mais.

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